sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius

 Aos 11 anos, li pela primeira vez a "Antologia Poética" de Vinicius... troquei por "Vinte Mil Léguas Submarinas", de Julio Verne, com um amigo meu... garanto que minha viagem foi maior que a dele, no final das contas...

   Tentei ler as duas primeiras poesias do livro, e não entendi nada... de repente, me deparei com os versos que mudariam minha vida pra sempre. 
   
   Claro que eu não tinha consciência disso, afinal, tinha apenas 11 anos. Claro que eu não compreendi os versos racionalmente... talvez pela primeira vez eu tenha lido uma poesia como ela deve ser lida: sem tentar entendê-la... 

   A partir daí, comecei a escutar Vinicius feito um alucinado. Enquanto meus colegas começavam a escutar Rock e outros estilos, eu entrava de cabeça nos mistérios da Bossa Nova...

   Um dia, assisti a um especial sobre o Poetinha onde ele declamava "O Haver", com o fundo musical de "Canto Triste", dele e de Edu Lobo, tocada pelo próprio Edu... eu tinha uns 14 anos...

   Nesse mesmo ano, escrevi minha primeira poesia...

   Acordei num sábado de manhã, e ainda lembrava do sonho... estava sentado com meu pai e outras pessoas ao redor de uma mesa, cantando e tocando, e, de repente, Vinicius me chamava (com um copinho de uísque na mão) dizendo: "Chega aqui, menino. Vou te ensinar a escrever poesia!". Acordei escrevendo...

  Decidi postar aqui esses dois poemas que tanto me transformaram e continuam transformando a cada novo mergulho em seus versos...


  O primeiro é o que li aos 11 anos... "Ilha do Governador".

  O segundo é o que eu considero uma das obras-primas da poesia mundial... "O Haver".

  Salve, Poetinha!

  E obrigado por tudo...

Rodrigo Sestrem

Ilha do Governador (Vinicius de Moraes)

Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Suzana - ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti - sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… - ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos - eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?


O Haver (Vinicius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura,
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
- Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo,
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esses sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta, quem sabe, inexistente,
E essa coragem indizível diante do grande medo
E, ao mesmo tempo, esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento,
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável,
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços,
E esse eterno ressuscitar para ser recruscificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada, 
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante,
Sem saber que é a minha mais nova namorada.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aceitação

É que o Tempo passa, só isso...
Nada mais...

Não é a falta d'água, ou de luz,
ou de razão...
Não é a incerteza do trabalho,
ou do domingo ensolarado
completamente encharcado pela chuva que enganou a máquina...
Nem mesmo é o chão molhado pelo telhado falho,
nem o gato no coqueiro,
nem o filme ruim que parecia bom,
nem o filme bom que assisto toda vez que passa...

É que o Tempo passa...

Essa birra que eu já sei que é inútil,
essa briga na qual só eu bato
e apanho...

Deve ser uma espécie de adolescência filosófica,
uma revolta contra o pai, o chefe, o professor, a autoridade...
Sei que Ele passa porque não sabe fazer outra coisa,
ou talvez seja pago pra isso,
ou talvez tenha se acostumado...
No fundo, não importa.

Quando o Tempo era jovem, contra quem se revoltou?

Já aprendi que Você passa...
Tá certo...

Resolvi abrir os olhos,
assumir que tô à bordo,
e curtir a viagem...

De repente, o segredo tá na paisagem...

De repente, encontro o que procuro pela estrada,
e aceno...

De repente, eu aceno de volta...

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Duas pontas

Ciclo fecha, flecha alcança,
alvo pego de surpresa
Quem ficou sentado à mesa
pôde enfim encher a pança.
Quando o estômago amansa
é possível pensar claro
é mais aguçado o faro
é mais alcançavel o prumo
pra encontrar o novo rumo
eu não escondo, eu escancaro!

Ciclo fecha, nova dança,
nos passos dos ancestrais
rugas sempre sabem mais
que assaduras de criança.
Quanto mais o tempo avança,
mais passado se acumula
Pensamento coagula
quando não se quer pensar...
Se o futuro te engasgar,
Nem tente cuspir, engula!

Ciclo fecha, outro inicia,
Novo deus tá a caminho
Morte é Vida após moinho,
Vida é Morte enquanto adia.
Duas pontas, noite e dia,
que se encontram na alvorada
O eterno é quase nada
Nada, sim, é o Infinito
E a ilusão, o sonho, o mito
A Verdade disfarçada.

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pandeiro de Gente (Música)

Quem faz andar a ciranda?
Quem faz andar a ciranda?
Quem faz andar?

São os passos tranquilos
de alguns andarilhos
sem pressa em chegar...

Olha lá
Essa roda que chega ali
É a casa de quem chegar
É um berço onde eu já nasci...

É um pandeiro de gente
que toca somente
o que a gente quiser tocar...

Quem faz rodar a ciranda?
Quem faz rodar a ciranda?
Quem faz rodar?

É quem sabe que o mundo
foi feito redondo
pra gente girar...

Sabe lá
Quanta gente ainda está por vir
Quanta água ainda vai rolar
Quanto verso ainda vai surgir...

Quantas voltas e reviravoltas
da nossa ciranda
ainda vão brotar...

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 5 de junho de 2012

Teu lugar (Música)

Quando o Tempo te arrodeia
Vaza o Rio, escorre a areia
Já não dá mais pra parar...
Pega a estrada, escolhe o rumo
Rasga a fruta e guarda o sumo
que é pra quando precisar...

Não deixa pra trás qualquer vontade
que possa fazer você voltar
Descubra o caminho pelo cheiro...
Carrega no bolso tua saudade
Desenha nos olhos teu lugar
Traz na tua trouxa teu pandeiro!

E quando passar beirando a Lua
Dedica-lhe os passos e o olhar
Pois ela é tua Mãe na noite escura...
Esquece o Futuro que insinua
Esquece o Passado que é só ar
E faz do Presente tua loucura!

(Rodrigo Sestrem)

Couro e Platinela (Música)

Ah, se essa rua fosse
só de couro e platinela
eu morava nela, meu nego,
eu morava nela, meu irmão!

Ah, se esse mundo inteiro
fosse a face de um pandeiro
Acabava nunca, meu nego!
Acabava não!

Quando ouvir a batucada
invadindo a tua janela
avançando a madrugada,
embaçando a tua tela.

Sai pra rua, vem com a gente
deixa a Lua ser teu mapa
O Destino é mais em frente
(Olha o destino ali em frente!)
É veloz, mas não escapa!

Deixa vir o tamborim
Vai chamar surdo e tan-tan
Vai sair lá do Bonfim
pra só parar em Itapuã.

Quando o Sol tiver chegando
e algum galo despertar
Vai ser tanta voz cantando
(Eita! Quanta voz cantando!)
Ele vai ter que acompanhar!

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Desafio

(Baixo)
Tu é grande mas num é dois!
Tamanho num é documento!
Tu é pau-de-virar-bosta,
é mastro sem catavento!
É só pão sem sal, mal-feito
que exagerou no fermento!

(Alto)
Exagerei no fermento,
mas você num viu nem grão!
Desde que nasceu, encolhe!
É chaveiro de anão!
Minha bola é de basquete,
a tua bola é um limão!

 Embola a bola no improviso e não me enrola!
 Você diz que é bom de bola quero ver você jogar! REFRÃO
 Embola a bola no improviso e não me enrola!
 Você diz que dá na bola, na bola você não dá!

(Baixo)
Minha bola é um limão,
mas você é que é azedo!
Uns cabelos de Medusa!
Cara feia de dar medo!
Tu é árvore já podre,
que eu derrubo com um dedo!

 (Alto)
Tu derruba com um dedo,
e eu te esmago sem receio!
Tu é só erva daninha!
Não tem casca nem recheio!
Pelo menos sou inteiro,
enquanto tu é apenas meio!

 (REFRÃO)

 (Baixo)

Posso ser apenas meio,
mas você é um desperdício!
Não pula de Boongie Jumpie
Pois dá pé no precipício!
Sou madeira em Bangalô,
você é concreto em edifício!

 (Alto)
Pois se eu sou um edifício,
o fato é que eu nem te noto!
Tu é casa de cachorro!
Nunca aparece na foto!
Quando eu tô num mar tranquilo,
você tá num maremoto!

 (REFRÃO)

 (Rodrigo Sestrem - Léo Pinheiro - Oswaldo Montenegro)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Profetas da Chuva

Chuva chega logo em breve
quem não traz que leve
nuvem leve atrás do Sol
chega nesta sexta feira
molha a terra inteira
prepara o anzol

Pescar...
Pescar sonho no açude
antes que se mude
do sonho pro despertar
Navegante do Agreste
barco é o que me veste
e o sertão, meu mar!

 (Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Açude Grande

Matuto olhando pro mar
Com cara de abestalhado
Pensando: "Que açude mais grande, meu Deus!"
 O Malandro, vendo aquela cena farta,
ajeita o nó da gravata
e diz sorrindo: "É todo meu!"

 "Esse açude é herança de família
 Ia dar pra minha filha, Mas ela enjoou!
 Tô vendendo assim meio no susto
 a preço de custo Ele é seu, se gostou!"

 E o Matuto, que de bobo não tem nada
vendo a conversa fiada respondeu calmo e cortez:

 (Falado)

"Assim, Dotô: O açude é muito bão
 e o dinheiro tá na mão pra pagar de uma só vez.
 Com a condição dele vir todo cercado trancado com cadeado!
 Ou o senhor acha outro freguês!"

 (Rodrigo Sestrem)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Espera

A Espera é o olhar na mata densa
Tudo vê, tudo mede e nada move
Vira terra molhada quando chove,
Quando é sol, vira nuvem e se condensa.
É uma fera que não age nem pensa:
só reage ao momento mais propício!
Se é afoita, arrisca o precipício...
Se é lenta, amarga outra fome...
A Espera garante o que consome
Se conhece e controla o próprio vício.

(Rodrigo Sestrem - 20/01/12)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cordelando o Pife Muderno

(Feliz aniversário ao Mestre Carlos Malta!)

Num país tão brasileiro,
desde o sul, norte e nordeste,
surge um som cabra da peste
lá no Rio de Janeiro,
Pelas mãos de um pifeiro
hermeticamente formado,
Depois do time escalado,
transforma em verão o inverno!
Ao som do Pife Muderno
não há quem fique parado!

O batuque chega insano
liderando o carnaval:
na zabumba de Durval,
no pandeiro de Suzano.
E pra completar o plano,
Bolão na caixa é retado!
Com o pandeiro de Bernardo
o batuque fica eterno!
Ao som do Pife Muderno
não há quem fique parado!

Guiando o vento na flauta
entre um salto e uma queda,
tem o bansuri de Déda
e o pife de Carlos Malta!
Agora nada mais falta!
Esquece já teu passado!
Te entrega ao som afinado!
Desabotoa o teu terno!
Ao som do Pife Muderno
não há quem fique parado!

Mesmo que lhe falte a rima
ou que acabe o seu papel,
pra completar o cordel
Poeta não desanima!
Relê de baixo pra cima
(e ouve o sopro sincopado...)
Se tá dado o seu recado,
fecha e batuca o caderno!
Ao som do Pife Muderno
não há quem fique parado!

(Rodrigo Sestrem - 2006)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Casa Nova (Música)

Olha, Menina bonita,
Escuta já o que eu te digo:
Pega as tuas trouxas,
Vem já comigo!

Toda e qualquer caminhada requer um começo...

Olha, Menina bonita,
Teu sonho e o meu são um só:
Ver nosso laço
tornar-se um nó!

Compartilhar essa estrada e o mesmo endereço...

Fecha os teus olhos
Pra eu te guiar no caminho.
Este barulho de mar
é a voz do Vizinho.

A chave você já tem:
É a chave do meu peito também...

Abre os teus olhos
e a porta do lar,
nosso ninho.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pelas rugas do rio (Música)

A pele é o pé, é o chão
rachados

Como se a gota de suor
que brota do chão
rolasse no chão
para desaguar no chão.

Feito lágrima seca
cavando um vão
rasgando a terra
cavando um vão

Pelas rugas do rio

Leito seco, Menino, com os olhos no mar
Poço fundo, Senhora, parindo esse chão

Pelas rugas do rio

Como fosse o planeta um corpo com fome
Como fosse o seu rosto o próprio sertão.

(Rodrigo Sestrem - Verônica Bonfim - Léo Pinheiro)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ancestralidade

Porque sou teu fruto
Teu salvo-conduto
pra pisar no infinito...

Porque sou da tua lavra
A esperada palavra
que explica o teu grito...

Te perdôo, te abraço
Aperto este laço
Te sou lá na frente!
E assim o teu braço
somado ao meu braço
alcança, finalmente,

Teu sonho distante
que eu sei, nesse instante:
É meu sonho também!

Porque sou teu futuro
Sigo além do muro
que você construiu...

Por ser teu horizonte
teu barco, tua ponte
pra vencer o rio...

Te perdôo, te abraço
Aperto este laço
tal qual a semente
que, com a força que resta,
abraça a floresta
que é sua nascente.

Riacho distante
do qual sei, nesse instante:
Sou afluente também.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Rabeca na Roda (Música)

Violino sem beca
é rabeca na roda!
O arco na roda é canoa...
É rabeca na roda
e a vida é canoa!

Mar que nunca mais seca
é rabeca na roda!
A roda que gira e que voa...
É rabeca na roda
que gira e que voa!

Quem faz sala pra Mestre Salu?
Quem cavalga o Cavalo Marinho?
Tá no côco e no maracatu,
tem pegadas em qualquer caminho?

Há lagoas de notas sem fundo,
e na beira um velho tocador.
Pois Seu Nelson, ele é nosso e é do mundo!
Terra bruta gerando uma flor!

Se essa roda gerar a ciranda,
Siba vem se balançar também!
E se alguém perguntar: "Quem comanda?"
a resposta é só uma: "Ninguém!"

Mas se a nobre galera insiste,
vem Antônio com a dança ancestral!
Pois brincante maior não existe,
e essa roda hoje é armorial!

E as meninas que aceitam o destino
de ser ventre onde o som vai nascer!
Se a rabeca é um ser feminino,
duas Rosas já formam o buquê!

Se essa roda é o mundo girando,
Tempo é a Rabeca e o Ganzá!
Cada gente é semente brotando,
tem um sol brilhando em cada olhar!

(Rodrigo Sestrem) - Homenagem a todos os rabequeiros e rabequeiras do Brasil

terça-feira, 31 de maio de 2011

Quixote de um País (Música)

Eu,
Desesperadamente quis
Viver a vida por um triz,
Roubar os sinos da matriz
com meu cavalo alado!
Contorcido, desenhado,
naquele papel de pão a giz...

Eu,
Inconsequentemente quis
Ser o Quixote de um país
Cujos moinhos eu que fiz,
sem água, ou pás, nem prado!
Esquecidos, rabiscados,
naquele papel de pão a giz...

Eu,
Que a todos desafiei...
Eu
confesso: não pensei
que quem escrevera a lei
nos livros do passado
fora o próprio condenado!

Eu,
Que em tudo acreditei...
Eu
confesso: nada sei...
Quisera ser um rei,
um príncipe encantado...
Do reino que herdei,
acabei sendo soldado.

(Taís Salles - Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Nas Curvas do Rio (Música)

Naquela curva do Rio
não tem canoa não...
Naquela curva do Rio
tem automóvel!

Passando rente
pela gente
na calçada fria
Passando rente
indiferente
ao violão
E a gente
crente que ainda
ia ser feliz um dia
Cantando e
assobiando
outra canção!

Na outra curva do Rio
num tem mais tronco não...
Na outra curva do Rio
tem viaduto!

Passando por cima
da gente num
caminho reto
sem saber
bem ao certo
pra que tá no ar,
como um atalho
pra ir em busca
de um sonho concreto,
pra quem
não tem
mais tempo de sonhar!

E nessa curva do Rio
num tem mais peixe não...
E nessa curva do Rio
tem Fast Food!

Chamando o
bucho da gente
feito bóia-fria,
comida quente
indiferente
à digestão!
E a gente
crente que algum dia
ainda se sacia,
sem ter que
colher tudo
num balcão!

(Rodrigo Sestrem / Renato Luciano)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Onda Antiga (Música)

Lua
és Senhora, Dona, Mãe,
Mulher do mundo.
Nos derrama
as ondas vindas do
ventre profundo.

Águas
curativas, fontes vivas
berço antigo
Nos leve
consigo, nos abrigue
nos ensine assim...

Ouça a enchente da maré
sussurrando algum segredo
Molhe os pés, não tenha medo
Dispa inteira a tua fé.

Onde anda a onda antiga?
Primeiro sopro do vento?
A folha em branco, o momento
em que se compôs a Cantiga?

Canção que ninou a terra
na primeira trovoada.
De quem era a voz cansada
que tanto segredo encerra?

Ouça a enchente da maré
sussurrando algum segredo.
Mergulhe, não tenha medo
Molhe e enxarque a tua fé.
A resposta não dá pé,
tá na ponta do horizonte.
Quando descobrir, não conte!
Leve o segredo adiante
que logo é maré vazante,
seguindo de volta à fonte.

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Velho Mundo Moço! (Música)

O mundo meu velho é um velho distinto
E em cada lugar ele se representa
Se é sujismundo ele não se contenta
E sabe se é seco, suave ou tinto
O vinho que rega pra não ser extinto
Nas margens que crescem formando a parede
O mundo mais novo deitava na rede
Agora sem rede, nem peixes, nem rio
O mundo já sofre com o novo sombrio
Que espalha o consumo sem mesmo ter sede

O mundo, seu moço, foi moço algum dia,
E os dias passavam olhando no olho
a terra, um banquete, e os mares, o molho,
a mesa repleta que a fome sacia.
O vinho que rega pra dar alegria
nas margens que crescem formando o futuro
O mundo, já velho, te encara do muro
e anda sozinho, nas ruas, na esquina,
É o Louco da Praça, que em versos te ensina
que o suor do Tempo é o vinho mais puro.

(Maviael Melo - Rodrigo Sestrem - Gustavo Henriques)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Faces da Lua

Você me segue,
vigia,
persegue,
Consegue ser ainda mais presente
que eu pra mim.

Sei que a Lua
é o teu olho em disfarce,
clareando meus passos,
tornando meu sangue
Maré...

Quando pisca pra mim,
num crescente, num riso...

Quando mingua, pequena,
fechando, dengosa...

Quando tem novidade,
e medita, no escuro...

Quando volta repleta,
cheia, orgulhosa!

É o teu olho, Mulher,
que eu encaro na noite!
A saudade é o mapa em minha mão.

É o teu olho, Mulher,
que eu encaro na noite!
Não me perca de vista mais não!

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Deus, admita que errou

Vim até sua casa, meu Senhor,
Pra mó de preguntá umas pregunta...
Inocentes... mas quando a gente junta
Vira uma confusão de dar pavor!
Por isso não se ofenda, faz favor,
Que gênio eu bem sei que eu não sou.
Mas por todo lugar por onde eu vou
Vejo umas coisa estranha, esquisita...
Peço que não se avexe e nem se omita
Ora, Deus, admita que errou!

Vou te dar um exemplo, e não brinco!
Diga logo, pra início de conversa:
O senhor já viu coisa mais perversa
Que criar o pobre do ornitorrinco?
O senhor tinha que ter mais afinco
Podia ter um pouco mais de tato.
Quem pintou universos sem retrato
Não tem porque não ter se decidido...
E até hoje o bichinho lá, perdido,
Sem saber se é um castor ou se é um pato!

Outro pobre coitado, o elefante,
Com um rabo no lugar do nariz
Pense na sinusite do infeliz
E nos litro de descongestionante!
E existe algo mais deselegante
Que a girafa com aquelas perna fina?
Agora, Pai do Céu, só imagina
Se a coitada se engasga cuma planta?
Tenha medo dessa dor de garganta
Quero ver que banca tanta aspirina!

Outra coisa que eu não vejo por quê
É pra que que existe a tal subida...
Por mim, existia só descida
Que é mais fácil e mais bom de se fazer!
Mas tá certo, nós vai fazer o que?
Vou dizer, e espero não repetir:
Era só o caso de corrigir
Um ditado que é muito do mal feito,
Pois pra baixo eu mesmo dou meu jeito
Os santo tem que ajudar é pra subir!

Tô pra ver brincadeira mais sem graça
Que essa coisa chamada de velhice
Que ainda traz junto com ela a calvície
E é aquela lisura nas carcaça!
É uma dor de coluna que não passa
Dieta pra cuidar do coração
A barriga virando um butijão
Uns buraco sem fundo na memória
E a diversão maior fica pra história
Já não sobe mais nada, só pressão!

O Universo na segunda-feira
Na terça, asteróides e cometas,
Na quarta-feira foram os planetas
Na quinta, mares, vulcões e clareiras.
A bagunça nasceu na sexta-feira
Tendo nos bicho alguns dos seus engano
No sábado inventou o ser humano
Criando duas besta numa leva!
Domingo adormeceu olhando Eva
E aí a criação foi pelo cano...

(Rodrigo Sestrem - Emílio Dantas)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pouso das Palavras

(Ao Poeta Damário DaCruz)

Se aprendi
o segredo das pipas?

Sim.

São palavras que voam
presas à linha do poeta.

O cerol são as rimas cortantes,
cores pintadas por metáforas em pincel.

Sim.

São palavras que voam.

E que têm seu pouso
no aeroporto que você
construiu pra elas.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nordestino

Nordestino, antes de tudo,
É um povo dos mais forte...
Pois é preciso coragem
Pra deixar o nosso norte
E seguir, pro sul distante,
Se vestir de viajante
Caminhar junto com a sorte.

Não tem que temer a morte
Não pode fugir da meta
Seguindo a estrada longa
Desenhando a própria seta
E cantando a vida em rima
Pois a gente lá de cima
Quando nasce, já é poeta.

No meu caso, já acerta
Quem diz: “esse já sofreu”!
Eita, verdade terrível!
Mas só quem sabe sou eu!
Haja prosa pra contar!
Se ocês quisé escutar,
Conto já o que aconteceu.

Vim de lá mais a família
Meus menino, minha muié
Nas trouxa, poucos pertence
Nos peito sobrava fé!
E os óio sempre cansado
Rezava, ajoelhado,
Pedindo viver de pé!

Quando consegui emprego
Fui vivê de tocador
Tocava mambo e bolero
Eu batucava o que for!
E se é o forró que retumba,
Na falta de uma zabumba,
Atacava de bongô!

A muié voltou pro norte
Num dava pra sustentar...
Os menino foram junto
Que aqui não tinha lugar.
E eu, buscando uma vida
Cá nas terra prometida
Sedento na beira do mar.

Nordestino, antes de tudo,
É povo que sempre luta
Não deixa morrer a honra
Não treme numa disputa.
Quando precisa, ele fala,
Se for melhor, ele cala
Se é necessário, ele escuta.

Vai buscar sonho no sul
Fugindo da terra agreste
Do sol que lhe queima o couro
E o couro que ele veste.
E sonha que a chuva desça
Que molhe sua cabeça
Que refresque seu nordeste.

Deixando a terra natal
Chegando na tal cidade
Buscando o sonho de vida
A simples felicidade!
Correndo o risco da fome
De esquecer o próprio nome
De mergulhar na saudade.

Saudade de sua terra
Onde deixou sua gente
Das roça de sua família
De cada planta ou semente.
Das noites de cantoria
Das rezas, das romaria,
Do sol tão forte, tão quente.

O sol, senhor dos seus dias
Vigia, permanece a pino
Até o fim, desde o início
Regendo o nosso destino.
Um dia, eu volto pras terra
E o mundo vai saber quem berra
Esse canto nordestino.

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais um dia no Sertão

Todo dia acordava antes dos sol
se ajoelhava e pedia saúde pra ele e para os seus.
Café era o prato de ontem.
Sempre esperava o atraso do sol,
uma folga, um tempo a mais pro torresmo fritar...
Mas nem o sol atrasava,
nem havia torresmo.
Mas havia coragem e havia medo também.
Mas o forte não sente medo,
nem chora, nem sente dor,
mas acredita na vida
e não pede tempo, nem sai do prumo.
Quando o sol finalmente escala o céu e mostra a cara,
ele chega a sorrir,
saboreando o café dormido,
já velho conhecido de seu bucho.

(Léo Pinheiro e Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Outro Haver

Resta essa necessidade de verso,
essa rima dengosa que me cutuca o braço,
e essa vontade de resumir a vida
num poema que me explique sem dizer nada

Resta essa vontade de chegar,
seja lá onde for, sabendo que a chegada
trará a vontade de partir
ao próximo destino

Resta esse sonho remendado,
retalhado, de panos baratos
e com cheiro de uma infância
que nunca me abandona,
e essa certeza de que a resposta
termina com um ponto de interrogação

Resta esse medo do fim,
da beira, da possibilidade
de um planeta plano
que guarde monstros em suas pontas,
prontos pra devorar as dúvidas
e os próprios medos

Resta essa lembrança distante
de um poeta professor,
ensinando a um menino poeta
seus primeiros rabiscos,
e essa consciência de que
a lembrança é verso também

Resta essa amizade antiga
de mãos que nunca se cumprimentaram,
abraços que não foram lançados,
e, ainda assim, ouço os conselhos
do velho homem sábio.

Resta essa homenagem simples,
quase como o retorno de um sonho
de quinze anos antes,
de quinze anos depois,
de um menino poeta que cresceu
apenas o suficiente
para agradecer.

Resta esse não saber como terminar,
essa aceitação de que é tudo chama,
por mais etéreo que seja
enquanto dure.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 11 de abril de 2010

Me deixa um olhar (Música)

Ei, Menina,
que entra na roda
tá sempre na moda
sem nem perceber!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

Ô, Menina,
do corpo suado
mais doce pecado
que eu vou cometer!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

E se a saudade
não quiser cruzar o rio
eu aceito o desafio
e vou nadando te buscar,
e não há ponte
de aço, corda ou madeira
que me prenda em qualquer beira
de lago, riacho ou mar!

Eita, Moça,
que dança bonita
meu peito se agita
pra te acompanhar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Moça linda,
da boca macia
pele cor do dia
e olhos de luar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Um dia, a Lua
vai inchar tão de repente
só pra poder passar rente
do teu rosto, pra te ver,
E então, surpresa,
vai ouvir minha voz suave
fiz da Lua minha nave
pra voar até você!

Ô, Menina,
que sonha comigo
teu sonho é o abrigo
onde eu quero morar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Eita, Moça,
se o amor desatina
vem logo e me ensina
que eu quero aprender!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

São Pernas que vêm andando, de vestido ou mini-saia

Sem Anita Garibaldi
Sem Cecília, nem Clarice,
E Florbela não me disse
que só espanca no escalde.
As poesias vêm sem fraude
esperando palma e vaia
inspiradas na lacraia
seus versos vêm rebolando
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Não há nada mais estranho
que a beleza distorcida
pelas mesas estendida
Eu, olhando, me acanho.
Parecem corpos de ganho
Não importa de que laia
Minha razão quase desmaia
e o mais louco admirando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

E um forró atrapalhado
O chapéu chega enxerido
do caboclo destemido
e eu olhando meio de lado...
Com uns copo, já mamado,
só esperando que ele caia
Não pensou em fugir da raia,
mas saiu cambaleando...
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Se espalham por todo canto
serelepes e afins
São formigas, são cupins,
espalhando aquele espanto.
Eu não acredito em santo
então caio na gandaia:
rasgo o couro da alfaia,
sento a zorra e vou cantando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

(Rodrigo Sestrem - Soluz Terrarium)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Xeque ou Mata (Música)

Deixa isso pra lá
Segue e
Pede pra parar
Diz que o
Mundo vai quebrar
Diz que a
Pedra vai cair
Que o
Profeta já acertou
Que o
Poeta já rimou
E há quem
Diga que sonhou
Que era
Sonho e quis sorrir

Então

Deixa pra depois
Vende o
Carro e assa os bois
Um mais
Um nem sempre é dois
Pra salvar
Já bastam três
Se o teu
Templo já ruiu
Se o teu
Santo já fugiu
Se o teu
Bucho já rugiu
Não espera
A tua vez

Pega e

Segue a pé
Leva o amanhã na mão
Se precisar de fé
Olha no chão

Não desmancha o tabuleiro
Não deixa o Rei desabar
Por mais que lhe falte peça
Se tu tá com pressa
Pra que foi jogar?

Mesmo chegando primeiro
Já tá lá quem te esperou
A resposta tá na cara
mas ninguém repara
que o espelho quebrou!

Deus soltou uma gargalhada
E o Diabo sossegou
Já chegou a tua hora
De pedir esmola
Pra tua própria dor

Já na alta madrugada
Quando o mundo cochilou
Joga teu disfarce fora
E confere a sacola
Vê se alguém roubou...

(Rodrigo Sestrem / Gustavo Henrique)

terça-feira, 23 de março de 2010

Distante do Sal

Pára! E o ouve o som dessa mata fechada
Passos molhados de um caminho natural
É a água doce do rio que corre, e mais nada
buscando o equilíbrio distante do sal.

E o brilho forte que sentes te vigiando,
e que te cerca inteiro, e faz vibrar teu ser,
No céu, são os olhos de Jaci, é a Lua inchando,
No chão, olhos da índia que você não vê.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 14 de março de 2010

Volta e Meia (Música)

Quem pode, pode,
quem não pode corre mais
e quanto mais se corre
mais se falta o chão

Passo a passo, dia a dia,
sol e noite sem parar,
toda terra tá à vista,
cada ilha uma canção...

Canto, grito, pulo, danço,
faço rir, faço chorar,
faço o mundo ficar manso
quando resolvo cantar...

Esse mundo gira muito,
volta e meia tô no chão
Mas floresta que se preza
algum dia já foi grão!

Quem aposta sua sorte
não perdeu a sua fé
só tirou ela de casa
pra manter o sonho em pé.

(Léo Pinheiro / Rodrigo Sestrem)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Lua Azul (Música)

Não diz mais nada
deixa ela chegar...
Que a noite é fada
tentando voar
deixando no ar
suas estrelas de condão...

Fecha os teus olhos
Juro que ela vem!
Se a noite é longa,
o sonho é mais além...
e eu sonho também,
sem soltar da tua mão.

E no teu sono, vai com fé!
Lá pode tudo o que quiser...
Mas, de repente,
vais sentir, contente,
minha voz e um cafuné...

Não olha ainda,
ela apareceu...
A noite é linda,
e hoje ela nos deu,
pra você e eu,
uma lua azul no céu.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Segredo

Trouxe a chave?

Tá trancado faz tempo...
Já até tentaram arrombar, mas não teve jeito...
Tenta aí...
Não é a chave não...
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Nem tenta, que essa não vai dar!
Tenho certeza sim... é de outro tipo, tá vendo?
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Essa parece que serve...
Tenta aí... pode ser que funcione...
Nem...
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Não?
Entendi...
Você já sabia que a porta tava aberta?

Entra... a casa é tua... o peito é teu...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Assumindo a autoria

"A brisa do mar vem calma
e traz a saudade no amanhecer
de um dia que não lhe encontro mais aqui..."

Mas fui eu quem soprou a brisa,
e com ela mandei a saudade
que é gêmea da que ficou comigo...
e o amanhecer, eu pintei pra você
na tela de um dia
em que descobri
que estamos juntos
e pronto...

Você não me encontrou
porque procurou fora...

Dá uma olhada aí dentro...

(Nanã - Rô)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Roda

E a roda começa...
Começa?
Mas se a roda não pára, como é que se explica?
De repente, o começo é continuação...

E gira a menina,
e gira a mulher,
e gira o flautista,
num sopro tornado, tufão

Gira, Tempo!
Gira sempre, mesmo que eu reclame!
Afinal, que que eu sei?
Não fosse você,
nem chegaria a ter de quem sentir essa saudade...
A roda não pára...
O verso não pára...
A rima é roda gigante, vazia,
que se enche quando alguém a lê...

A roda não pára,
Saudade só gira,
tonteia meu peito
e me diz pra gritar

E o grito, girando,
rodando no mundo,
talvez te atinja
e te faça girar...

Teus olhos que giram,
reviram, pedintes,
seriam duas luas
fingindo faróis

E eu, refletindo,
teria o requinte
de trazer pra rua
duas luas, dois sóis

E a roda não pára!
E o tempo não pára!
Você nem repara
que eu já me perdi...

Fui, tonto, sorrindo,
entregue à fogueira
mirando a guerreira
mais linda que vi...

E a roda termina...
Termina?
Mas se a roda não pára, como é que se explica?
De repente, o fim é continuação...

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Mãos anciãs

Tua mão é um livro de mistérios
cada linha é um segredo bem guardado
Tens na palma macia o berço aberto
cada dedo, um caminho a ser trilhado.
São parábolas, mitos não contados,
são histórias de antes, de amanhãs,
provas vivas do fogo das irmãs,
terras férteis de mil novos amores,
és Senhora de todos os Senhores,
És a velha menina, és Nanã.

(Rodrigo Sestrem)

Itacoatiara (Música)

Pra falar do mar
saber se é legal
tem que mergulhar
provar do seu sal

Subir no Costão
Ir no Bananal
tão longe do chão
visão sem igual

Jogar futebol,
e até surfar
ver o pôr-do-sol,
me sentir no ar

Isso é bom demais!
Nem dá pra explicar...
Tanto amor e paz,
Praia de Itacoá...

(Iago Muniz / Rodrigo Sestrem)

Conjecturas (Música)

Se essa saudade bastasse pra eu ver as estrelas do céu
e essa vontade de ter a mulher que é banhada de mel
Ai, se eu pudesse ficar sem pensar,
se eu pudesse querer sem chorar...
Os seus olhos seriam as estrelas do céu!

Se essa verdade fosse mais sincera, pra mim, pra você
Se os amores não fossem quimeras, me diz para quê?
Qual a razão de seguir teu caminho?
Prefiro ficar no meu canto, sozinho,
tentando entender o que vem de você!

Ai, os mistérios que somem no tempo de um simples piscar...
Velhos segredos retidos na lente deste seu olhar...
Num acorde perdido, eu encontro a razão
de provar o teu doce, minha inspiração,
de beijar tua boca sem me viciar!

Se essas estrelas do céu me bastassem pra te iluminar
Se essa brisa soprasse o teu beijo e eu pudesse alcançar
Se o pensamento voltasse em meu peito,
e eu, quase sem jeito, fosse procurar
os teus olhos sorrindo pra me iluminar...

(Rodrigo Sestrem / Maviael Melo)

Segunda-Feira (Música)

Vai trabalhar!
Que hoje é segunda-feira, João!
Vai trabalhar!
Hoje não vai chover, chove não!
Vai trabalhar!
Não tem mais brincadeira...
Teu sonho dá rasteira...
Melhor ficar no chão!

Vai trabalhar!
Que o tempo passa rente, mermão!
Vai trabalhar!
É bote de serpente, né não?
Vai trabalhar!
Que o mundo tá rangendo...
Ferrugem tá comendo...
Tá sem manutenção...

Trabalha
que o mundo só falha
pra quem não trabalha, João...
E guarda
o suor do teu rosto
que é pra dar o gosto no pão...
Se a tua fé
tem perna bamba
vai fazer um samba, e dormir...
Que o dia
sempre acorda cedo
pra te sacudir...

Acorda
pra soltar a corda
que te amarra ao sonho, João...
E aquece
essa marmita fria
que tua mordomia é o feijão...
Esquece
aquele idéia besta
de que a tua vez tá no ar...
Domingo
te passou lotado
nem deu pra notar!

Vai trabalhar!

(Márcio Proença - Marcus Lima - Rodrigo Sestrem)

O Sono dos Justos (Cristo Redentor) (Música)

O Sol se pôs
atrás da mão do Cristo Redentor
a sombra em cruz, rendendo toda dor,
abençoando essa cidade...

A noite
vai maquiando tanta solidão
batom nos lábios, desejo nas mãos,
vai colorindo esta viagem...

E os sonhos
que todo dia, todo mundo tem
de melhorar na vida e ser alguém
sem se perder na escuridão

Não
o mal não pode ser maior que o bem
então não guardo mágoa de ninguém
e sigo a minha direção

O sol raiou
iluminando o Cristo Redentor
estou sereno, nem sinal de dor
Vou me deitar com esta cidade...

(Márcio Proença - Marcus Lima - Rodrigo Sestrem)

Samba pra mim (Música)

Quem nunca fez um samba,
já se esqueceu
Que a vida é corda bamba
que se rompeu

E quem fugiu
e quem pulou
quem desistiu
quem se engasgou,
Não quis cantar o samba,
e não viveu...

Eu vim de outras fontes,
de outro lar...
perdido em tantas pontes
pra me encontrar

Atravessei
voltei atrás
cambaleei
e ainda tem mais:
subi no horizonte
pra enxergar melhor!

E foi assim
que apareceu
depois do fim
um samba meu:
o samba que o Proença
fez pra mim.

(Rodrigo Sestrem - Márcio Proença)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Beijo Roubado

Foi o Sol, tranquilo,
foi dormir...
Deixa a Lua guiar os sonhos todos!
Já chegou apressada, ainda dia,
quase cheia, mais que branca,
só pupila...

Ela viu!
Ela foi testemunha,
ela foi cúmplice!
Era o olho do céu
mirando a praça...

Rio Vermelho,
és tão reles quanto és mágico!
Palco que não cobra pauta,
palco que não tem censura...
Crimes, acarajés, festas, despedidas,
teu roteiro é vasto,
teu público é maior...

Mas hoje fui ator e personagem...
Hoje te agradeço,
pois, mesmo no improviso,
a moça linda me roubou um beijo...

E só uma cadeira estava ocupada...
só um espectador...
uma Lua...
um luar...
um lugar...

Eu bem sei que ela sorriu,
gargalhou de mim, poeta,
pego assim, de surpresa,
presa fácil da moça mais linda...

Nada é mais doce que ter um beijo roubado...
Talvez pegá-lo de volta...
E devolver...
Pegar de volta...
E devolver...
...

Eita, que agora Ela faz todo o sentido!

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cachoeira (Música)

Cachoeira
Cidade que encanta
Nem sei bem por quê
Brincadeira
Uma saudade tanta
Mar que não se vê

Poesia
Versos de um rio
Rima é correnteza
Mais um dia
Nem calor, nem frio
Nenhuma certeza

Veja
Não tanjo rebanhos de verdades
As saudades é que seguem meu caminho
Busco
A correria louca das cidades
Quando o que eu preciso é estar sozinho.

Aventura
Atravesso a ponte
Vou e volto em vão
É loucura
Ver no horizonte
Qualquer solução

Imagina
Ser bem mais que um homem
E ainda sonhar
É a sina
Quando os sonhos somem
Nos resta esperar.

(Letra: Rodrigo Sestrem / Música: Gil Meireles - Juliana Ribeiro - Soluz Terrarium - Ricardo Bacelar - Hermógenes Araújo - Miguel Franco)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Pareia (Música)

Eu vi o Amor dançando frevo,
na avenida, eu vi o trevo
brotando
e as quatro folhas eram cada estação

E era um corpo primavera
florecendo, e sendo o outono
nos passos
caindo e rindo, e o riso era um verão

E o inverno eram seus olhos,
lareira, verde fogueira
aquecendo
batendo o pé, cavando um poço no chão

e eu era a luz de uma candeia,
parceiro, era pareia,
poeta que não bobeia e leva o Amor pela mão

Eu vi o Amor brincando os passos
guerreiros, eu vi os primeiros
passos dela, Bela,
e a rua cheia era o seu lar

E lá de longe, comovida
toda a gente era bem-vinda
ao mundo lindo
da menina que queria dançar

e era o Amor dançando frevo
na praça, só de pirraça
sorria,
e quando me via, começava a pular,

e eu era a luz de um meio-dia
pareia, era a alegria
inocente de uma criança que começa a brincar.

Segura o passo que eu vou chegar
se o pulso passa, meu peito finca o chão
promete as linhas que passam na tua mão
e nesse passo eu sou
a velha estrada sempre a te esperar
de passo em passo eu vou
passando a vida inteira a te guiar.

(Rodrigo Sestrem / Léo Pinheiro)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sintoma de Abandono (Música)

Ela me disse
que era hora de ir embora
que o homem, quando chora,
não vale a pena ficar

e eu parado
secando a chuva dos óio,
quanto mais choro e não móio
mais difícil disfarçar!

Cidade grande
é coisa muito interessante
cabra macho retirante
traz peixeira e traz punhá!

Mas no primeiro
sintoma de abandono
cabra macho perde o sono
e já sente a faca envergá...

E quanto mais
o tempo vai passando
a cidade vai buzinando
as histórias do lugar

Quem sabe agora
esse homem já não chora
pois quando a saudade aflora,
logo começa a cantar!

(Léo Pinheiro - Renato Luciano - Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ordem natural das coisas

Até quis escrever sério,
falar de política,
fazer versos críticos,
falar do universo,
etc e tal...

Busquei metafísicas,
tentei dicionários,
li jornais, revistas,
só pra me inspirar...

Ouvi cotidianos,
mergulhei no trabalho,
me instiguei revoltas,
fingi revoluções...

Mas de nada adiantou...

Tá aqui:
Mais um poema de amor pra você...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 29 de novembro de 2009

Obra-Prima

Escrita em Recife, dia 26/11/09

Se a vida é mesmo essa tal "Arte do Encontro",
acabamos de retocar uma obra-prima.
tendo sorrisos selando o fim do confronto,
como pincéis que passam a tinta por cima.
E que a paisagem que essa nova tinta imprima
seja a do mundo nas horas em que te vejo.
Ou mesmo o sol, liderando algum cortejo,
que cante o amor e a saudade em cada tema.
E assim me resta somente mais um problema:
resistir novamente a te roubar um beijo.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 22 de novembro de 2009

In Vino Veritas

Não se preocupe com o poeta, não...
Sua poesia é mais viva que ele,
é seu oxigênio,
é seu vinho, seu mar...
Deixa o poeta rimar,
pois sem rima e sem métrica
a vida não vale,
o mundo não gira,
as férias não chegam...

Tantas constelações,
e o poeta só mira uma estrela...
que não está lá...

Deixa o vinho reger,
que a orquestra só toca
o que o poeta quer ouvir...
E que transbordem verdades!
E que borbulhem saudades!
E que gargalhem distâncias!

Pois o poeta entendeu...
Pois o poeta aprendeu...

Então, menina,
aceite seus versos,
sem medos, sem gestos,
apenas sorria...

Pois nem sempre o mundo
te chega já pronto,
lindo, perfumado,
vestindo poesia...

A noite, tão curta,
tão longe, tão linda,
se lembra, ainda,
do poeta criança...

E a taça, vazia,
vasculha o céu negro,
encontra a estrela,
e grita, e avança!

E o poeta sorri...
Pois entende que, no fim,
o que vale do encontro,
é apenas o encontro...

O resto, é depois...

Ao mestre poeta,
o poeta aprendiz
agradece, sorrindo...
se despede, feliz...

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Menina Terra

Se o teu olho ficasse mudo,
ainda assim eu escutaria teus sonhos,
soprados sem pressa em pifes,
sentados sem jeito nos trens...
E te veria girar nessa dança ancestral
de uma gente que sonha e que sua,
e que orbita sorrindo outro ser...

Pois teu nome é Planeta!

Se a tua boca não me sorrisse,
ainda assim eu devolveria alegria
arranhada em arcos e rabecas,
viajando com os pés num país...
E te veria pisar nesse solo sagrado
de uma gente que ri e que sua,
e que faz brotar outro ser...

Pois teu nome é Chão!

Se tua mão não me alcançasse,
ainda assim eu guiaria teus passos
pincelando em cordas de viola
ponteando pensamentos no ar...
E te veria plantar novas buscas
numa gente que pensa e que sua,
e que colhe sua chance de ser...

Pois teu nome é Berço!

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quase Verso

Gérbera...
Quase girassol...
Será por isso que é só quase amor
o que volta?

Véspera...
Quase Dia D...
Será por isso que esse verso
é quase revolta?

Mas tá tudo bem...
Amor não é amizade...
também é só quase.

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Poeta e a Bailarina

Sou poeta de nascença,
quando vim trouxe comigo
Muitos versos, e te digo:
É melhor do que tu pensa!
É mais benção que doença
essa ânsia de rimar
quando aprendi a amar
entendi o meu ofício
hoje o Amor é o meu vício
impossivel de curar.

Vivo em busca da Poesia
procuro um verso perdido
pelo mundo esquecido,
quase que eu me esquecia!
Mas lembrei, naquele dia
em que o Mar se declarava
para a Lua, que o chamava
e ele, tornado maré
por maior que fosse a fé,
nunca que a Lua alcançava.

Eu me senti esse Mar
buscando a Lua impossível
comportando o incabível
nas palmas do meu olhar.
Vi meu sangue transbordar
em ondas, pisando a areia
caminhei horas e meia
e um Sol cansado rasgou
o céu, e a Lua apagou,
e era um Mar sem Lua cheia.

De repente, ao longe vejo
um vulto descendo a praia
o dia quase desmaia
não suportando o desejo.
Aquilo que eu tanto almejo,
a lição que a vida ensina
o escorrer da areia fina
no caracaxá das horas!
Enxerguei dez mil agoras
nos olhos da tal menina...

Hoje sei que não sou nada
sem a força do meu verso
cada vez mais submerso
nessa existência rimada.
Tantos anos nessa estrada:
Atingi a minha meta
Atirei a minha seta
Já cumpri a minha sina:
Achei minha Bailarina,
E me tornei seu Poeta.

(Rodrigo Sestrem - 2006)

domingo, 1 de novembro de 2009

Antes do Pôr-do-Sol (Música)

Antes de eu perceber, você sorriu
Alma pintada de verde, me viu
Verdes olhos e um cheiro de flor...

Antes de eu me encontrar, você passou
Passarim bailarino em pleno vôo
Passos leves e o céu coloriu...

Antes do pôr-do-sol, você fugiu
Dando as costas pro mar, e o Sol caiu
Queda livre sem chegar no chão...

Antes de te esquecer, eu disse não
Quis guardar teu sorriso em minha mão
Inquilino em meu peito vazio...

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Velho Menino

Vê bem...
Olha com cuidado...
Não te parece também?

Ele é um velho menino,
em eterno transitar no tempo...
Vem a barba branca, vai a barba branca...
Vem velho, volta menino...

Que sais que nada!

O Azul é do olho dele...
O Verde também...

Há de se pedir licença
pra brincar no seu rosto velho!
Velho bondoso, menino cruel...

Há de se amar de longe,
quando ele tá zangado!
Velho incansável, menino dengoso...

Há de se olhar nos olhos,
ao mergulhar na íris salgada!
Velho sábio, menino curioso...

Há de se sentir saudade
do colo de avô que conta histórias!
Velho pescador, menino mentiroso...

Há de se temer sem medo
a força calma que corre em suas veias!
Velho forte, menino brincalhão...

Há de se saber que é berço,
nascedouro imenso de qualquer poema!
Velho poeta, menino apaixonado...

É tão velho quanto o Tempo, esse menino Mar...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 25 de outubro de 2009

Tulevisão de Matuto

Seu Dotô, num leve a mal,
num sô mal-agradecido...
Mas preciso devolvê
o presente recebido
que só causô confusão!
Essa tal Tulevisão!
Eita, caixote enxerido!!

Meus minino, coitadinho,
já nem come mais marmita...
só querem Eme Cê Donáud
a mãe deles fica aflita!
É Maqui Xique! Maqui Fichi!
É Maqui o diacho todo! Vixe!
Mais que coisa esquisita!

Tem um tal de video gâmi...
um que tem uns plei no nome,
que deixa os minino doido!
Só param quando a luz some!
Tem uns bicho dos inferno,
uns barulho tão muderno,
de dá medo em lobisômi!

Inté mermo minha mulé,
sempre tão trabalhadeira,
quis quebrá o pau comigo
por causa de uma besteira!
Porque viu, numa manhã,
um tal Jorge Foremã
vendendo uma frigideira!

A minha filha mais velha,
o sinhô veja se isso pode!
Disse que qué viajá!
Quando eu nego, se sacode!
Qué ir pros Rio de Janeiro!
Diz que vai ganhá dinheiro
com um tal de Bigui Bródi!

Minha sogra, na cozinha...
cada dia inventa um prato!
Só num faz tripa de bode,
num faz bucho, nem faz fato!
Só comida da istrangêra...
de uma lôra faladeira
e de um papagaio chato!

Um dia eu pensei comigo:
pra que toda essa agonia
só por causa de um caixote
que só mostra fantasia...
Resolvi sentá um pouco,
mermo achando que era louco!
Mas pra vê se eu entendia...

E o que eu vi me fez tremê!
Seu dotô, eu nem te conto!
Foi tanta barbaridade
que eu quase que fico tonto!
E ói que eu sô macho que só!
Nunca dei ponto sem nó,
e nem nó fora do ponto!

Vi uns hômi bem vestido,
remexendo as duas mão,
dizendo que era pastor...
Mas eu num vi as cabra não!
Apontavam lá pra cruz,
se diziam de Jesus,
mas só falavam no Cão!

Vi umas moça bunita,
andando tudo em rebanho...
Umas cos peito de fora,
e eu achando aquilo estranho.
Diz que é um tal de TopiLessi
Vai vê é por isso que cresce!
Tinha uns desse tamanho!!

Ouvi umas musga esquisita,
acho que chamava Roqui...
Diferente das cantiga
que a mulé gosta que eu toque...
Aqui o som nasce da terra!
Lá, parece até uma guerra,
cantando e levando choque!

Vi um gordo gozadô,
com as barba esbranquiçada
que só fazia cantá,
perguntá e contá piada...
Tinha uns copo de azulejo...
Mas quando mandô o beijo,
eu desliguei a danada!

Pensei: Onde já se viu?
Não existe mais respeito!
Cabra macho que nem eu
ganhá beijo de um sujeito!
Resolvi: vô devolvê!
Tentaram me convencê,
mas eu disse: Não tem jeito!

E tá aqui ela de volta...
não serviu pra gente não.
Nós não fica chateado,
que o que vale é a intunção!
Mas leve e não traga mais!
Que nós qué vivê em paz,
longe da Tulevisão!

(Rodrigo Sestrem, sobre tema proposto por Emílio Dantas)

domingo, 18 de outubro de 2009

Onde tudo tem e tudo falta (Música)

Me vale, meu São José
Acode, santo qualquer!
Me mostra por onde ir,
Acode que eu vou partir...

Contam que o Amor, já descontente
quis fugir pra longe da cidade...
E assim nasceu, linda e cadente,
uma estrela chamada Saudade.

Pois enquanto aí a noite é alta
aqui ela é cinza e toca o chão...
É onde tudo tem e tudo falta,
e o que mais me falta é o teu portão.

(Léo Pinheiro / Renato Luciano / Rodrigo Sestrem)

sábado, 10 de outubro de 2009

Aos amigos de lá

Amigos!
Sei que fui eu que vim embora,
mas não me esqueçam!
Vim porque precisava...
Vim porque amava, só por isso...
Amor passa, tempo passa,
saudade fica...
saudade fica...

Eu também fico... volto mais não...

Amigos!
Sei que fui eu que vim pra longe,
mas não me esqueçam!
Era que nem voar,
pular do trampolim,
vestir o vento e a água,
sonhar um sonho além...
Sonho passa, tempo passa,
saudade fica...
saudade fica...

Eu também fico... volto mais não...

Amigos!
Sei que fui eu que virei as costas,
mas não me esqueçam!
No próximo luau,
cantem algo pra mim!
Cantem algo por mim!
No violão de Gil,
pintado sem rumo
no espaço... também passo...
saudade fica...
saudade fica...

Eu também...
e vocês, comigo...

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Metamorfose Ar (Música)

Brisa,
sopra e avisa o vento
que a qualquer momento
ele tem de respirar...

Vento,
corre e diz pro mundo
que a cada segundo
o tempo vai mudar...

Tempo,
muda de repente,
desce e passa rente,
num rasante, toca o chão...

Brisa
vira tempestade
vento de verdade
é sempre furacão...

Gira o mundo
e o mundo gira
e a gente respira
vai buscar a inspiração

Mundo gira
e gira a Terra
e a gente berra
querendo voar!

E alça vôo
no céu cinzento
dando as mãos pro vento
cirandando a imensidão...

Tempestade
que assobia
quando raia o dia
é brisa a beira-mar...

Brisa sopra e avisa o
Vento corre e diz pro
Mundo gira e a Tempestade
cansa e vira
Brisa sopra e avisa o
Vento corre e diz pro
Mundo gira e a Tempestade
cansa e vira...
Brisa...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 20 de setembro de 2009

Marco Zero (Música)


Vê bem, menina...
Não que eu queira convencer de nada,
nem de nada vale o velho sonho...
Sonho velho mofa e desbota,
isso quando não acorda babando e
dizendo palavrões...

Apenas busco o Marco Zero,
apenas quero a marca d'áqua
que me afogue as marcas
que ainda não cicatrizaram nada...

Vê bem, menina...
Não quero o beijo nem o olho claro,
nem desejo o gosto doce que ainda sinto...
Sinto apenas que ainda falta
um sorriso sem pressa nem vontades,
sobrando alguns perdões...

Apenas busco o Marco Zero,
apenas quero a marca d'água
que me banhe os olhos
que ainda não secaram nada...

Vê bem, menina...
Não quero aquela bailarina de rua,
Ana Lua, ou as russas que choram...
Choro apenas um segundo,
no seguinte sou brincante maltrapilho,
mudo e olhando você...

Apenas busco o Marco Zero,
apenas quero a marca d'água
que me lave o tempo
que ainda não parou pra nada...

(Rodrigo Sestrem / Gustavo Henrique)

domingo, 13 de setembro de 2009

Ciranda Gigante (Música)

Pra quê
lembrar valentia,
se a minha poesia
ficou com você?

Pra quem
importa se um dia
a estrada em que eu ia
partiu de você?

Eu vi
ciranda gigante
diante da praça
em frente ao jardim

E eu,
sozinho, pedia
que a sua folia
dançasse pra mim...

É que eu espero
que qualquer dia
minha poesia seja parte de você...

E ainda quero
que a tal valentia
se entregue à folia
mesmo sem saber por quê...

Pra quê
importa se um dia
a estrada em que eu ia
ficou com você?

Pra quem
lembrar valentia:
a minha poesia
partiu de você.

Eu vi!
Sozinho, eu pedia
a sua folia
em frente ao jardim.

E eu,
Ciranda Gigante,
diante da praça
dançava pra mim...

É que eu espero
que qualquer dia
minha poesia seja parte de você...

E ainda quero
que a tal valentia
se entregue à folia
mesmo sem saber por quê...


(Renato Luciano / Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vestiário

Era um jogo?
Só um jogo?
Sério?
Juro que não sabia...
E eu pensando que era simples,
natural, respiração...
Não! Era cálculo,
era estratégia, era ensaiado!
Como é que se brinca assim?
Sinceramente, não sei...
Não gosto de Darwin!

Ainda não te entendi,
não saquei a tua!
Parece uma rua deserta com sinal vermelho,
e ninguém passa porque não...
mas pra apostar corrida,
vale até no verde!

Quais palavras foram ditas sem palavras?
Em que frases não existem entrelinhas?
Abaixo os subtextos!
Gosto das conversas das crianças!
"Tô com fome!"
"Você é feio!"
"Deixa a luz acesa?"

De que vale a inteligência
quando ultrapassa o peito?
Feitiço contra o feiticeiro,
burrice travestida,
amor no canto de castigo...

A vida é o solo de sax na música do Gil...

Assim, não ouço o apito do juiz...

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Depois cadê?

Cadê a paz que devia estar aqui?
Cadê a calma que devia bater no peito,
no lugar desse coração que não te esquece?
Te prepara que tô a caminho!
Se a paz não veio, vou buscar!
Se a calma não chegou, eu trago!

Cadê o dengo que me viciou?
Cadê o suspiro que me fez maior,
pensando ser bem mais que mil encruzilhadas?
Te prepara que tô a caminho!
Se o dengo sumiu, eu acho!
Se o suspiro secou, eu sopro!

Cadê o "Te Amo" que só ouvi depois?
Cadê o depois, que acabou tão cedo,
e que levou consigo as juras tão fatais?
Te prepara que tô a caminho!
Se o "Te amo" tá mudo, escrevo!
Se o depois já passou, vou antes!

Cadê você, que nunca mais me amou?
Nem menos...

Tô chegando!

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cinco mil e dois

Cinco mil pessoas e uma musiquinha tocava só pra gente
Cinco mil cabeças
Cinco mil invejas
Cinco mil vizinhos reclamavam da música que tocava dentro da gente

E quanto mais reclamavam
Mais a gente dançava
A valsa do peito da gente

E quanto mais a gente dançava
Mais se comentava
Da violeta alma da gente

E nessa dança egoísta
As nossas almas riam
As almas gêmeas da gente

E a vizinhança desejava
Que se futucasse
pois havia de ter algo escuro
Bem lá no fundo da gente

E quanto mais escurecia,
mais se cegava
do sol que ardia nos olhos da gente...

e dessa praia inventada
os beijos eram a areia
virando castelos pra gente...

e quanto mais a gente morava,
mais vizinhos reclamavam
da música de dentro da gente

E a vizinhança desejava
só que se calasse
pois havia de ter algo puro
que não viesse da gente...

E quanto mais eles esperavam,
mais a gente ria...
e ria...
e ria...

Cinco mil risos se juntariam ao nosso...

(Renato Luciano / Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Velho Mago Violeiro

Ainda ouço o violão tocando livre
e a voz antiga e grave me ninando o sono...
As serestas que me trilharam a infância,
e agora, à distância,
parecem a única vida que tive...
Vinicius, Noéis, Adonirans,
Chicos, Robertos...
E a mesma voz guiando todos
pelo peito novo,
de um jeito novo que hoje é
casaco rasgado e de estimação...

Ainda vejo o violão marcado
pelos dentes crescendo e coçando...
e o bebê careca e gordo
nas cordas bambas do pinho velho,
treinando o número que um dia faria...
E o velho mágico, ainda jovem,
pedindo silêncio, porque eu dormia,
tentando ver com quem eu parecia...
e eu era eu só...

Ainda toco o violão quebrado,
presente que ele mesmo consertou...
uma viagem da qual me foi guia...
bachianinhas arranjadas e assinadas.
E a saudade vibra em cada corda,
em cada acorde de nona que soa da mão...
da mão que herdei do mágico,
do velho mágico...

Hoje sei que sou seu maior truque...
Um dos dois maiores...

(Rodrigo Sestrem)

Bobeia não, Bonitinha!

Lambi mesmo...
E lambo de novo!
Bobeia não! Bobeia não!
Quem que mandou cair do ombro pro colo?
Quem te ensinou a ter um sono tão doce?

Qual era o sonho, menina?
O que te fez abrir os lábios pequenos,
pedindo atenção?

Queria tanto que você me visse
te vendo dormir...
Bobo, babão, inteiro...
Mas não quis te acordar pra isso...

Sabe o que é, Bonitinha?
O Tempo passa feito estrada à noite,
balançando o colo que te nina e acalma...
Passa e chega...
Passa e vai...

E aí, eu lambo mesmo!
Bobeia pra ver!

Se eu te acordei, não me desculpa não!
Foi sem querer, mas, mesmo assim, eu quis!
Pois vai que amanhece antes da hora?
Vai que eu cochilo e perco o despertar?
Quero te ver dormir, Bonitinha,
só pra te ver abrir os olhos, sem pressa,
e saber que eu tava ali, por perto,
olhando...

Mas se demorar...
Bobeia não,
que eu lambo!!!

(Renato Luciano / Rodrigo Sestrem)

sábado, 25 de julho de 2009

Soneto pra bronzear a humanidade

Eu quis ter como musa a humanidade
com seu rosto de velho herói de guerra,
marinheiro que nunca viu a terra,
criatura que espelha a divindade.

Fui levado sem paz pela loucura
de tentar pôr o foco em igualdade,
como fosse um rascunho sem rasura,
feito pintar de verde essa cidade.

E assim eu provei a minha idéia,
e ainda trouxe, de brinde, a solução.
Fiz dessa confusão coisa pequena:

Sempre há preferência na alcatéia,
e pra se amar toda essa multidão,
basta focar, tranquilo, uma morena.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

PoeTio

Na verdade, nem sei...
essa vida que me agride, doce,
e que me faz pensar tanto
e tanto, e sem adiantar,
essa mesma vida me faz rir...

O que importam amores de mão única,
invejas disfarçadas,
jogos de relacionamentos,
canções de amor feitas com olhos secos?

Nada mais importa...
Essa mesma vida que me mostra, vazia,
em plena rua calma da cidade
um homem com fome
(enquanto discuto figuras de linguagem)
e me prova que morrer de fome
já não é metáfora,
e que miséria não é pleonasmo
e que é eufemismo sorrir,
essa mesma vida me mostra
que há jeito...

Afinal,
de que vale sentir saudade
e chorar por isso?
Ou amar e achar que é pouco?
Ou assobiar melodias pela rua,
e nem perceber que só falta voar?

O que importa, no final,
é que meu irmão vai ser pai...

Ainda tem jeito...

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 18 de julho de 2009

Dialogando

Irmãos em versos jogados ao universo
em versos irmãos de outras jornadas...

(Maviael Melo)

jornais são nada perto dessa história,
que na memória de mil universos
causa reversos, danos, tilts, panes...
e não te enganes quanto ao que eu digo!
o nome "Amigo" é bem maior que Deus
pois se são meus o sonho, o amor e a fé,
então quem é o dono desse mundo?
Deus é, no fundo, Amigo, além de Pai,
e se distrai criando versos santos...

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Amiga da Sorte

Eu conheci uma menina que se diz
amiga íntima da Sorte, quase irmã,
cultivam desde a infância uma amizade sã
de trocas justas e aventuras por um triz.
E pra fazer aquilo que ela sempre quis
trazia sempre a Sorte junto pela mão
e a Sorte, esperta, nunca que dizia não
porque sabia que a menina era um anjo
dizia: "pode me pedir que eu me arranjo"
e iam assim, plantando a vida, grão a grão.

Hoje, crescida, essa menina ainda acredita
que a Sorte continua ali, sempre ao seu lado,
mesmo escondida, ainda faz algum agrado
quando percebe que a necessidade grita.
Quando acontece qualquer coisa esquisita,
e a menina põe a vida à sua vontade,
a Sorte ri, pois acredita de verdade,
que só assim, inocente, o mundo ainda tem graça,
e assim promove o encontro deles numa praça
pra dar descanso de uma noite pra saudade.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 12 de julho de 2009

Chocolate ou Tangerina?

Fico com raiva não... juro!
Só não entendo!

Como é que você faz pra resistir?
Como é que se organiza o beijo?
Como é que se comporta o desejo?

Acho até que te invejo...
Também queria ainda saber do mundo...
mas no exato segundo em que esse tal mundo vem,
você arrebata meu peito com tua saudade teleguiada,
e aí começo a te orbitar...
e aí a gravidade com que me olhas sedenta
quase me faz cometa apressado em cumprir destino...
e eu cometo a loucura, prometo!

Mas vai que só resistes
porque ainda não tem peso?
Vai que o espaço ao meu redor
ainda tá reto, direto, chato...
aí, você nem tem culpa, confesso...
mas nem mérito também!! Arrá!!!!
Afinal, que dificuldade há em se resistir a um chocolate
quando se prefere mesmo uma tangerina?
Aí é fácil!

Meu problema é que sou baiano,
e cê tem gosto de acarajé...
com vatapá, menina...
do Rio Vermelho, Morena...
feito na hora...
e quente...

Qual tua comida predileta?

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 11 de julho de 2009

Vamos Brincar (Ludmila Sestrem)

(O Texto a seguir é de minha melhor amiga, a pessoa cuja opinião mais importa pra mim: minha irmã!)

vamos brincar?
sem regras, medos, razão...

correr, agir, cantar...
pra tudo, pro nada, pra o mundo que atua junto,
às vezes um sorriso falso dói mais do que lágrimas sinceras...
vamos brincar de sentir?
vamos sair por aí gritando nossa felicidade, o passar dos anos,
a saudade tão presente, o futuro alterado.
vamos brincar de sorrir...

palavras clichês, papel amarelado, a tinta da caneta acabou...
como tornar mais real isso que não me deixa em paz?
a beira da insensatez traz mais inspiração do que mil sorrisos
e a lua sorridente contrasta sua beleza com meus olhos já sem cor.
vamos brincar de criar?
vamos sair por aí desenhando esquinas e ruas que nos encontrem,
ou podemos desenhá-las no nosso olhar...
vamos brincar de destino...

vamos gargalhar a simples razão de existir,
mesmo que a razão não bata na porta há tempos,
tempo que passa, que aguarda, que envelhece junto com a gente.
vamos brincar de fugir?
esquecer o mundo, ou trazê-lo junto se preferir,
deixa aquela música tocar, ela acalma a alma...
está tudo completo,
vamos brincar de amar?

cinzeiro cheio, copos vazios...
meu coração ainda está aqui,
minhas promessas, todas as palavras lindas que tenho pra dizer.
guardadas para que? para quem?
brincar de que?
sua vez de escolher... de falar...
às vezes cansa brincar sozinho...
vamos brincar de solidão?

mas quando palavras não bastam,
o amanhecer só traz apenas mais horas para tentar manter os olhos secos,
torcendo para a lua trazer um sonho bom,
quando fantasias não saem mais do papel
e suas mãos secam sozinhas a sua face,
é hora de brincar de viver.

(Ludmila Sestrem)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Verso livre

Vamos correr perigo!
Vamos arriscar tudo!
Nada de calma, nada de morno,
Bom dia! Buon giorno! Good morning!
Adorne e enfeite teu dia, Morena,
que a cena é nova e já foi ensaiada!
De que vale o medo
se não for desafiado?
Viva o medo!
Viva o frio na barriga!
Também tenho medo, mas eu rio dele!
Olho pra ele e digo: pode vir,
que é você mesmo que eu tô esperando!
E ele ri de volta, sabendo que estamos juntos!
Ele também tem medo de mim, pois me sabe poeta!

Vamos correr riscos!
Vamos riscar regras!
Duas semanas, uma semana, meia semana, um sétimo de semana!
Se emana essa vontade, por que fugir?
Sem monocromatizar a vida, Peixinho! Nada de preto no branco!
Viva o verde e o vermelho!
Viva a cor morena!

Salve os quartos pequenos,
as caixas que falham,
as fugas mais cedo!
Salve a saudade assumida,
as bocas famintas,
os corpos molhados!

Vamos saudar o perigo!
Quando a vida passar, curiosa, perguntando como foi,
a gente pode responder sem medo,
pois ele já foi gasto lá atrás...

Vamos sentir mais do que devíamos!
Viva o exagero!
Viva a Poesia!
Isso que é liberdade...

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Senão não brinco!

Te quero, Morena,
que nem bicho buscando refúgio contra o frio
que nem rio que não vive sem o sal
que nem noite que amanhece sem querer...
Sou teu porque senão não brinco!
Faço birra, faço bico,
esperneio...
Não escrevo mais!
Nem leio!
Faço greve,
e de quem me deve, cobro o dobro!
E pago só a metade!
Eu fecho ruas, inundo casas,
invado mentes,
viro enchente de versos de chuva,
pois um dia sem teu beijo
são dois dilúvios e um quinto...
E a minha Arca sumiu!!
Ah, menina!
Olha a marca do teu corpo em meus olhos!
Tatuagem em minhas retinas, é o que és...
E esses espinhos nos meus pés,
que não me deixam parar!
Te quero, minha linda,
que nem caminhos querem pés descalços...
que os espinhos caem a cada passo...
a cada verso que faço pra você...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Berço de Dendê (Música)

Se o ijexá balança,
e a Bahia dança em meu peito longe,
é pra eu estar mais perto
das ladeiras do Pelô...

Se o ijexá confunde,
e eu não sou mais um de tantos que lá dormem
é pra eu estar desperto
vendo o amanhecer da ilha...

Se o ijexá domina,
e eu não sinto a sina de sair do berço,
é pra eu seguir crescendo
desmamando do dendê...

Se o ijexá consola,
e a saudade é mola de eterna vontade,
é pra eu estar de volta
mas só pra molhar os pés...

Se o ijexá aquece,
e a vida merece sempre um novo canto,
é pra eu ficar calado
pra ouvir Iemanjá...

Se o ijexá me move
e o olho chove, vira tempestade,
é pra eu sorrir, tranquilo,
com a certeza de chegar...

(Rodrigo Sestrem - Marcus Zanomia)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Casa Rosa

A vida é linda porque existe uma Morena
que pede beijos, dengosa...
fazendo beiço,
e eu quase esqueço
da tempestade que inunda ao redor...

A vida é linda porque existe uma Morena
que gosta dos cabelos
doidos, desgrenhados...
e eu quase esqueço
que não é só coração que dá nó..

A vida é linda porque existe essa Morena
que ama o mar, no fundo,
e vem das ondas, sereia antiga,
amante amiga,
e eu quase esqueço
que é tudo o mesmo amor...

A vida é linda porque existe uma Morena
que morde o beijo, e sopra,
me vem faminta,
e eu quase esqueço
que é na multidão que estou só...

A vida é linda porque existe uma Morena
que sopra o pife, e beija,
e que me olha assim...
e eu quase esqueço
que só por isso eu vim...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 28 de junho de 2009

Me dá frio na barriga, Morena (Música)

Me dá frio na barriga, Morena,
ao lembrar do calor do teu beijo...
por pensar que essa vida é cortejo
e eu não quero chegar só no fim!
Saiba que eu sempre te olhei assim
e não vou mais fingir que não vejo!
Se ao pensar em você eu fraquejo,
é porque você me faz mais forte!
Se eu te olhar assim, não se importe,
é o Poeta enxergando a Poesia.

E a saudade que serve de guia
é avalanche de neve, só cresce,
mas que, em vez de ser fria, aquece,
pois me lembra que a vida é bonita!
Com teu cheiro, meu peito se agita
e procura o teu peito em dueto,
teu sorriso virou amuleto
os teus olhos, a porta de casa,
o teu beijo é voar sem ter asas,
me dá frio na barriga, Morena!

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 27 de junho de 2009

Pequenambucana (2004) (Música)

Pequena,
Nos teus olhos há Cirandas
A banda toca na esperança de te ver
Como eu que, ao te ver, me vi sorrindo,
seguindo a roda de mãos dadas com você...

E essa saudade de um lugar que nem conheço
é o começo de um amor que eu descobri
nuns olhos verdes, ao som doce de Cirandas
nós na varanda ouvindo os versos que escrevi...

Pequena,
Olhos de Maracatu
Nação de festa, vira o baque do tambor
Alfaias em meu peito falam alto
eu salto, danço, busco louco o teu amor...

E essa saudade de um lugar que nem conheço
é o começo de um amor que eu encontrei
nuns olhos verdes, ao som de um Maracatu
dois corpos nus, dois loucos, nós, foras-da-lei...

Pequena,
Vejo o Frevo nos teus olhos
Belas sombrinhas lhe protegem o coração
Russos-capoeiras vêm dançando,
e eu, liderando, lhe dedico esta canção...

E essa saudade de um lugar que nem conheço
é o começo de um amor que apareceu
nuns olhos verdes ao som veloz de um belo Frevo
agora escrevo só pra provar que já sou teu...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Culpa Santa

Poeta,
segue em frente que não tem mais férias!
As coisas sérias chegam a galope,
e a veia entope com sonhos guardados...
Se tens os dados em teu bolso, joga
está em voga o tempo dos sem medo!
Não é segredo que o mundo cansou
e que já se queixou
com Deus, e tá parando...

Poeta,
vai tua vida, e vai tua vida agora!
A voz lá fora é a mesma que calou
e que estourou a bomba da poesia
causando o dia na tal noite escura...
A tua loucura é simples, é tranquila
estás na fila do banco dos réus
que sonham céus clamando a culpa santa
de quem levanta
e começa a rimar...

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Conclusão 3

O Tempo é um velho apertado sem coragem de mijar na esquina.

(Rodrigo Sestrem)

Conclusão 2

A Poesia é uma menina perdida dos pais no shopping, há 57 anos.

(Rodrigo Sestrem)

Conclusão 1

O Tédio é um prédio em chamas na noite mais fria do século.

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 20 de junho de 2009

McVida

Já tentei vender versos nessa estrada
saladas só com palavras seletas
mas ninguém nem olha nem compra nada
foi cortada a poesia das dietas!
E o amor, a cozinha dos poetas,
virou especialista em Fast Food!
E quem acha que é carne, só se ilude,
mais parece um cd com gosto e mole
e como tem gente que só engole!
Ainda vão se engasgar com tanto grude!

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Novo de novo (Música)

Eu ando a procura de uma nova canção
De versos serenos, alegres, brincantes
E antes que acorde no mote de antes
Noutras variantes procuro um refrão
Que acorde um acorde do meu violão
Num acordo sonoro doutra melodia
Rabisco no espaço mais uma poesia
Vou metrificando, meus versos no espaço
Em rimas de sons cantando o compasso
Joguei a bandeja noutra cantoria

Abri a palavra e segui o sentido
Num tom sustenido eu já quero cantar
Aumentando a passada em um novo bailar
Nos braços dos versos que estavam perdidos
Eu ando a procuro de um canto pedido
Um mote qualquer que mude a batida
A carta na manga, que vira a partida
O timbre perfeito da nova canção
O sopro que afina os tons do salão
Gerando bailados felizes da vida

E o novo, de novo, me chega do nada
e eu admito: ele me viu primeiro!
me chega sorrindo, meio desordeiro,
me olha de lado, com a roupa engomada.
e a carta da manga era dele, a danada,
e o timbre perfeito era o da sua voz,
e o sopro era um leve suspiro de algoz
que o novo, de novo, respira, tranquilo,
e eu, simples poeta, com jeito de grilo,
viro consciência com a garganta em nós.

Eu sigo à procura da canção rebenta
dos serenos versos, brincantes também
pois toda poesia é sempre neném
que baba e cochila, que cai e que tenta!
E o bebê de versos, sou eu quem sustenta
dando de comer rimas amassadas
a cada “outra vez” são fraldas trocadas
e um dia, quem sabe, depois de crescida
minha filha Poesia, e a missão cumprida,
já posso ir embora por outras estradas.

(Maviael Melo / Rodrigo Sestrem / Gustavo Henriques)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cia Mulungo!!!! 1º Clipe!

Salve, Galera!!

Aí está o nosso primeiro Clipe! Cia Mulungo na área!!!
Assistam e divulguem!

COME TOGETHER / PAPAGAIO DO FUTURO (Lennon/McCartney - Alceu Valença)
Arr. Oswaldo Montenegro





(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Côsa Nossa

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E vem rebolando,
sorrindo sem dentes,
com pêlos caindo,
pedindo um pedaço...

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E manda na casa,
escolhe o almoço,
controla a dormida,
engasga o latido...

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E não desce escada,
não deita de costas,
acorda assustada,
não come banana...

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E não sobe escada,
tem barriga rosa,
e o olho igualzinho
ao do Gato de Botas...

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E foi testemunha
do primeiro beijo
e viu a família
ir e vir e ir e vir...

Só uma Côsa faz meu pai chorar...

E Bula também...

E Fontedajuventunzuns também...

E Nati também...

Afinal, não é qualquer Côsa...

Eu choro também...

Corre atrás do cobertor gigante, Côsa...

Arrá!
Arrá!
Arrá!

(Rodrigo Sestrem)

Circo-Lar

Eu quero ser palhaço!
Quero ser Quirino, e amar Maria!
Quero pintar o rosto de tinta barata,
me vestir colorido com roupa rasgada,
me despir das vergonhas trazidas com o tempo!
Quero desaprender canções, cantar paixões,
regar sorrisos, chorar azuis!

Quero dançar ridículo,
e balançar os braços,
como que tentando afastar más idéias...
Quero olhar o espelho
e ver a cara qual papel em branco,
desenhado de cores livres
que nem rabisco de criança distraída...

Quero ser Palhaço!
Tocar realejo sem ter manivela
Sorrir sem por quê, mesmo com olhos tristes...
Ser ladrão de mulher,
sair dentro da lei, bobo que é rei,
que conduz sua corte
sem cetro ou espada, só risos...

Quero amar alguém
como quem só ama porque senão chora
Amar sem por quê, mesmo com peito em prova...
Quero o rosto contente
em ser rosto com tinta, contanto que limpo...
E limpar o picadeiro já velho
do mundo mais velho que é tão circular...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 7 de junho de 2009

Semana ideal

Tivesse eu direito a três desejos,
pediria primeiro sete sextas-feiras na semana...
segundas, terças, quartas e quintas seriam sextas,
e sábados e domingos seriam, finalmente, sextas também...
em segundo lugar,
faria com que o relógio ficasse preso
entre meio dia e três da tarde...
às três e um, seria meio dia...
em terceiro,
que ela só tivesse prova às segundas...

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 6 de junho de 2009

Pensando em Si

Fuja não!
Logo agora que te encontrei,
vai embora?
Não!
Não deixo!
Nem venha ficar fria,
não ligar,
fazer pesquisas científicas com meu peito...
Nem venha ter medo do afeto,
que só quem afeta a fé tá vivendo...

Vai brincar com o piano, sem medo!
Cria tua aquarela de notas,
são doze tons, sejam sons, sejam cores...
são tantos dons, sejam bons, sejam dores...

Deixa de ser boba!
Essa história de fugir não serve!
Água sem ligar fogão não ferve!

Não dá pra viver só de dia...
nem dá pra ser noite pra sempre...
É o ciclo que vale,
e o que vale é rodar!
A onda não vem e vem...
nem volta e só volta e pronto...
de que serve só entrar,
se não sair pra entrar de novo?
Nem venha pensar em ficar de fora!

Fecha o olho e toca!

Sai da toca e ama!

Amanhã me conta...

(Rodrigo Sestrem)

Olhos por engano

Olhei no espelho,
e não me reconheci...

Sai buscando minha máscara perdida,
minha cara cara cara,
que ficou pelo caminho...

E sai sem rosto, sem olhos,
vendo apenas preto e branco,
tendo vultos como guias
sendo envolto pelos dias
como se correr não fosse normal...

Ah, e o cansaço me consumiu os sonhos...
Palavras, eu tomei emprestadas!
As minhas também não sabia onde estavam!
Não que o caminho fosse longo...
afinal, andei em círculos!
Mas o chão era movediço,
lamacento, denso...
Penso que se a máscara tivesse afundado,
algum dia alguém havia de achar...

Seria tarde pra devolver?
Seria tarde pra resolver mudar?

Olhei no espelho,
e lá estava eu de novo...
Oxe! Mas o que aconteceu?
A máscara voltou sozinha, de algum jeito...
ou será que eu tava usando os olhos errados?

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 31 de maio de 2009

Anzol e Caniço

A busca constante da nova poesia
querendo encontrar a metade do verso
que rege a harmonia do louco universo
que esconde a noite e amostra o dia
eu conto a saudade daquela alegria
que outrora fazia meu verso sonhar
buscando outra rima eu vou sem parar
trilhando as estradas no rumo da vida
já contei o tempo, dei nova partida
seguindo o desejo sereno de amar.

E o tempo contado nas mãos e nos pés
é como se fosse o barro da estrada
migalhas de sonhos que surgem do nada
são âncoras postas em pleno convés.
Não vale o espelho se sabes quem és
e a rima é que nem canivete suíço:
tem tudo e tem mais, e sem compromisso,
recorda e arruma as estrofes do mundo
Se o fim do caminho é algum mar profundo
é bom ter levado um anzol e um caniço.

(Maviael Melo e Rodrigo Sestrem)

sábado, 30 de maio de 2009

Antes do Amanhecer

Amor de minha vida,
prometa me chegar de repente!
Vem sem eu perceber, vem felina..
Vem no momento em que o amor
estiver dormindo,
e toma o lugar dele!
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa me chegar sorrindo!
Mas um sorriso simples,
sem som, sem brilho...
um sorriso que é sorriso porque sim,
e pronto...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não me dizer nada!
Vem sem voz, sem texto,
vem com beijo e pronto!
Sem palavras, sem resumo,
que nem versos são bem-vindos!
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não trazer relógio!
Vem sem hora, sem minuto
vem eterna, ainda que acabe,
que acabar não é pra agora
é só você não dar corda...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não fazer promessas!
Vem sem sonhos, vem sem planos,
Vem na ponte de um olhar,
dorme ainda que desperta
que eu te nino e te consolo...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa vir antes do amanhecer,
que a noite é nossa garantia,
que a lua é nosso sacerdote,
que o sereno é nossa água benta,
que as estrelas são nossas testemunhas.

Amanhecer é uma lenda antiga...
Acredita não!
Eu prometo...

(Rodrigo Sestrem)