domingo, 28 de dezembro de 2008

Fuga

Eu pensei correr de mim...
e consegui.
Era brincadeira, mas levei a sério.
Hoje, não faço idéia de onde estou.
Nem uma ligação
telegrama
e-mail
scrap
nada...

Será que me magoei?
Cara sensível de merda!
Não dava pra ter uma conversa,
um monólogo saudável?
Olhar olho no o...  espelho,
encarar o reflexo!
Às vezes, a única maneira
de se refletir é refletir-se.

Pensei correr de mim, e fui...
e eu fiquei!
Agora tô aqui, pela metade,
inteiramente
De que adianta ser eu sem mim?
Não me reconheço
nem nos meus versos.

Se eu estiver lendo isso, 
por favor, 
volta!
Eu voltaria,
por que Eu não?

(Rodrigo Sestrem)

Caminho da Busca (Música)

Moça
que mora na praia
Espera que caia
seu sonho do céu...

Mas sonho
não manda convite
por mais que acredite
nas coisas que diz

A Moça
que mora na praia
esperando que caia
seu sonho do céu.

Moça
Teus sonhos não são em vão
Nem vão e vem com o mar
Cair do céu, nem pensar
Vai no horizonte buscar!
Que é o Caminho da Busca que vale sonhar...

Moça
que mora na praia
E sonha com o Moço
que mora por lá...

Por lá
lá bem longe, lá onde
o sonho se esconde
das coisas que quer

A Moça
que mora na praia
sonhando com o Moço
que mora por lá.

Moça
Teu Moço sonha também
Só que não vem com o mar
Cair do céu, nem pensar
Vai no horizonte buscar!
São as mãos dadas da volta que valem sonhar...

(Rodrigo Sestrem / Gil Meireles / Soluz Terrarium)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Menestreando

Acorda, Moleque!
Pára de babar o travesseiro!
O dia já chegou, já foi, voltou, foi de novo,
e você aí?
Vinte e sete anos sonhando, Moleque!
Chega!
Acorda!
Seu ronco já encheu!
Seu olho já não vê!
Abre logo esse olho!
Tu é um cego de mentira,
uma ilusão que sonha!
Acorda, Maluco!
A vida já tá quase na metade, 
e você aí
Levanta, Babaca!
O tempo não se perdeu contigo.
Passou, gritou teu nome,  e nada!
Desperta, Poeta, depressa!
A poesia que te ninou
agora é a tua vitamina
Rima sim, mas pra frente!
Sonha sim, mas acordado!


Bom dia


(Rodrigo Sestrem)

Overdose

Poesia demais anestesia
Cada verso é uma dose de morfina
Cada rima ilude e alucina
E uma métrica certa é o que vicia.
E o torpor travestido de alegria
Sempre esgota em plena madrugada.
Com a próxima dose preparada,
O poeta espanca sua veia,
Qual aranha picando a própria teia,
Se injeta outra estrofe já sonhada.

E assim segue o poeta viciado.
Quando fuma cordéis, cheira os modernos.
Guarda tudo escondido nos cadernos,
Transmutados em tintas e papéis.
E aceita com calma o seu revés,
E paga qualquer preço ou valor
Pela morte de não sentir mais dor.
Ao trocar a morfina por cicuta,
Ele alcança o final de outra disputa,
Qual poeta que morre com o Amor.

(Rodrigo Sestrem)

Desfé

Converso com versos diversos
Que passam por minha cabeça...
Já não acredito nas rimas,
Talvez eu não mais as mereça...
Não sei mais fazer poesia...
Nem sei mesmo se as fazia...
Cansei de tentar, pelo menos...

A vida não passa com a gente,
Só nos observa, quieta...
Aposta o destino provável,
E quase sempre ela acerta...
E a eterna criança brincando,
Nem vê o ponteiro voando...
Nem vê o parquinho fechar...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mensageiro (Música)

Eu vim pra contar
que a fartura passou por aqui
só que ela resolveu não ficar
que caminho tomou, eu não vi
e as pegadas que eu tentei seguir
o Sol seco tratou de apagar...

Eu vim pra contar
que essa terra tão seca no chão
é meu berço, é meu mote, é meu lar
é de onde brota a inspiração
pra rimar as linhas da minha mão
com as linhas que o Sol faz rachar...

Eu vim pra contar
que uma flor vermelha já brotou
pede água, mas água não há
E a cor dela ainda não desbotou
e, garanto, não vai desbotar!
pois a flor aceitou seu lugar
e sua cor foi o Sol quem pintou...

Eu vim pra contar
que boatos começam a correr
sobre águas que podem chegar
sobre gelos que vão derreter
sobretudo, a respeito do mar
que o sertão pode até afundar,
e o que Sol vai ficar para ver...

Eu vim pra contar
que a viola que teima em sofrer
e esse pife soprado no ar
e a rabeca arranhada a gemer
são as vozes de quem, ao nascer,
viu o Sol e aprendeu a sonhar...

Eu vim pra contar
que o sertão ainda ousa sorrir
e viver, apesar de secar,
e que, mesmo sem ter pra onde ir,
o seu povo escolhe seguir
com o brilho do Sol no olhar...

Eu vim pra contar
que esse povo que troca o sertão
sonho vão da vida melhorar
na cidade já sem coração
ainda sonha com o dia de voltar
pra no fim dessa vida chorar
tendo o ombro do Sol como irmão...

Eu vim pra contar
e a mensagem completa contei
resta agora à minha casa voltar
lá nas terras que um dia deixei
tanto tempo que eu nem sei lembrar
do caminho, e me deixo guiar
pelo mesmo Sol que sempre amei...


(Rodrigo Sestrem - Poesia musicada por Pedro Araújo)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mal-me-Quer (Renato Luciano de Paula) (Música)

Salve!

Resolvi aproveitar este espaço pra homenagear alguns amigos poetas também.
O primeiro vai ser meu grande irmão lá das Gerais, Renato Luciano de Paula, o velho Nimeiro!
Este verso dele é uma das coisas mais lindas do mundo, uma das músicas mais lindas do mundo!

Abração, Nimeiro!

Mal-me-quer (Renato Luciano de Paula)

Chegou a hora de brincar
de mal-me-quer
Só vale dizer a verdade,
a verdade e nada mais

Da nossa valsa da calçada,
o sapato desgastou.
Da nossa alma de varanda,
o teto desmoronou.

Tua alma de vingança
minha cara de senhor.
Brota o sorriso sem graça
some a voz do cantador...

Mas se for pra dizer a verdade,
dos dois, quem sente mais saudade...

Sou eu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Chegou a Vez (Música)

Chegou a vez desse céu
Desse céu que é só seu
Que é só meu
Que é de todos
Que um dia olharam pra um céu
Tão azul, tão anil,
Que sumiu
Que ficou tão escuro
E vazio...

Chegou a vez desse mar
Desse mar, maravilha
Da ilha
Que bóia tranqüila
Não sabe que tem a seus pés todo um resto
De vida e de morte
Sem dor
Sem razão...

Chegou a vez desse chão
Desse chão, chama Deus
Que só Deus
Para nos ajudar a pisar
Sem esse medo de ter
Nossos dedos
Comidos por chãos
Canibais...

Chegou a vez da canção
Da canção
Pra cansar
Pra caçar, pra causar uma revolução
Uma revelação da criança que
Chora escondida
Por trás dos
Jornais

Chegou a vez, minha vez
Nossa vez, nossa voz!
Pra quem vê
Tanto fez, tanto faz!
Faz tanto tempo que o tempo não pára
Pra ver a vergonha
Estampada
No olhar

(Rodrigo Sestrem - poesia musicada por Maviael Melo)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Depois eu conto...

Sem saber que era verdade,
Eu busquei...
E os tropeços me doem ainda,
Como saudade da pedra que eu chutei.
Lembro pouco da estrada...
Terra ou asfalto, é possível.
Era estrada, e isso basta.
As placas não diziam nada,
Brancas feito qualquer coisa que não é.
Eram olhos cegos, que não me viam
Mas sorriam quando eu passava.
Nunca sorri de volta...
Até que um dia, cheguei.
Não aonde queria (pois o que é que eu sei do meu destino?)
Cheguei ao fim da estrada.
Sem muros, sem precipícios, sem mares ou rios.
Mas eu sabia que era o fim
E assim, sabendo que a verdade
Tinha ficado lá longe,
Sentei e esperei por ela.
Quando ela não veio,
Sai da estrada
E segui.
Quando eu conseguir sair de onde vim parar,
Eu conto.

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 29 de novembro de 2008

Depois do samba

Mas e quando a gente cansa?
Como é que se faz?
Correr atrás, seguir em frente,
tudo é urgente, tudo é demais...

Mas e quando a gente chora?
Como é que se faz?
Enxuga o rosto, finge o sorriso,
apaga o aviso, disfarça o gosto...

Mas e quando a gente aceita?
como é que se faz?
Deita e espera, liga a tv,
olha e não vê que é vem a fera...

Mas e quando a gente aceita
que cansou
de chorar?

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Paradigmas

Eu já ouvi dizer que ele era chato...
Às vezes até é... às vezes, nem tanto...
Que tinha uns monstros famintos nas pontas...
Engolindo navios, mas não garanto...
Mas se o mundo é redondo há tanto tempo, 
Porque que ainda cagam os quatro cantos?

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Mulher

Foi quando eu a vi chegando.
Via apenas seu vulto. Estava longe, muito longe, mas eu sabia que era pra mim que ela olhava.
Pra mim, no meio da multidão de pessoas e pessoas que havia ao redor, era pra mim que ela olhava.
E eu pressentia que apenas eu a via.
Linda. Linda. Seus cabelos eram negros e belos e longos, como as noites de estrelas das noites da ilha.
Seus olhos, negros como os negros cabelos noturnos. Linda.
A multidão continuava seu caminho na direção do vazio de cada vida que dela fazia parte, vazios que se encontravam no mesmo lugar.
Ninguém percebeu a mulher chegando.
Só eu.
Ela também parecia não ver o mundo de gente ao meu redor, seus olhos eram guiados para os meus, e o frio da noite crescia como crescia o desejo de olhar para sempre aqueles olhos.
Olhos negros e belos e distantes.
Mas cada vez mais perto.
Foi quando ela me disse "Siga-me".
Não era uma ordem, mas não pude negar.
Quando toquei sua mão macia e fria, entrelaçando meus dedos nos seus, já não enxergava mais o rebanho de indivíduos que agora há pouco ao meu lado perambulavam.
Éramos apenas nós dois.
A mulher e eu.
Perguntei-lhe "Quem é você" e ela, calada, disse "A Vida".
Sorriu.
Sorri.
Foi quando paramos à beira do mar, e ela, de repente nua, abraçou-se a mim, de repente nu.
Corpos nus e frios e quentes de desejo.
Seus olhos diziam "Beija-me" e os meus resistiam.
Pensei na multidão, que podia estar assistindo àquele espetáculo inusitado, mas multidão não mais existia.
Ela disse "Antes pensar em seus amigos, em sua gente".
Pensei.
E senti saudade, e senti o amor crescer ao redor de nós, e do mar, e do firmamento.
Linda. Linda e nua.
Sonhos passam por nós em nossos sonhos, sonhos belos e incríveis.
Mas aquele sonho era maior.
Linda e nua. Linda.
O frio aumentava, mas já não mais o sentia.
Seu abraço aquecia meus pensamentos, e meus pensamentos aqueciam nosso abraço.
Falei "Quero te beijar agora".
Seus lábios tocaram os meus, e sua língua roubou meus sentidos.
O mundo girava, parado, estático, mas girava com a velocidade da luz.
Luz que emanava de seus cabelos negros, de seus olhos negros.
Perguntei-lhe, finalmente "És A Vida ou A Morte".
Respondeu-me apenas "Sou".
Sorriu.
E me levou de mãos dadas pela estrada que surgiu no mar.
Nasci.


(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mar Bravio

Mar bravio, fios de espuma...
Conte uma, duas, três!
Cante as ilhas de uma vez,
Mire o Sol, antes que suma!
Admita, aceite, assuma
Que a saudade te agride!
Que a distância coincide
Com a próxima aurora...
E se a hora te devora,
Não demore mais, duvide!


Ame a interrogação,
Tenha sempre outra pergunta.
Com tanta mentira junta,
Vale a pena ter na mão
O talvez, o sim e o não,
Pra que, antes que seja tarde,
Dialogues, sem alarde,
Preparado e prevenido,
E encontres, escondido,
O olhar de uma Verdade.


Equilibre-se na crista,
Surfe a vida devagar.
A Verdade como par
Está lá, ainda que assista.
Se cair, não, não desista!
Mire o olhar que te aguarda,
Que o sucesso já não tarda,
Pois o mar bravio te ama!
Na praia, a criança chama,
Vai ao mar, mergulha, nada.


Mas a água é traiçoeira,
Nem bem cai em seu domínio,
A Verdade, em seu fascínio,
Cai nas mãos da brincadeira!
Distancia-se da beira,
Entrega-se à imensidão.
Sente vir do coração
A vontade de ir ao fundo...
Olha o céu, respira o mundo,
E mergulha, busca o chão.


E assim tentas, já em vão,
Alcançar a mão pequena
Que afunda sem ter pena,
Que condena tua ação.
Tu te entregas à ilusão
De que a Verdade respira
Ar e água, Tinta e Lira,
E que a poesia basta
Pra vencer uma já gasta,
Mas ainda viva mentira.


Te retiras do oceano
Trazes à tona a verdade
Em teus versos sem vontade,
Em tuas rimas por engano.
Ainda assim, não causas dano
Aos caminhos dessa vida!
Lá do fundo, comovida,
A Verdade te agradece...
Em seguida, te esquece!
E também segue esquecida...


Algum dia, outro amador,
Poeta por natureza,
Há de encontrar, com certeza,
A Verdade e o Amor.
Num mar bravio sem calor,
Ou nas ilhas que contar...
Não importa em que lugar!
Basta mergulhar sem medo,
Desvendar outro segredo,
Pra Verdade respirar.


(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Grãos de Poeira

Mudança que assusta,
Ainda que agrade
Viver da saudade
Que vem quando vai!
A terra se esvai
Gerando uma nova,
Peito posto à prova
Passa com louvor
Vivendo o amor
Em verso ou em trova.

A vida te aprova
Se ousas sonhar
Se buscas no ar
Os grãos de poeira.
Se pulas fogueira
Sem queimar os pés,
Se vais ao convés
Pra içar tua vela...
Se à moça mais bela
Tu mostras quem és!

Então nem mil fés
Seriam o bastante
Pra o riso constante
Riscar do teu rosto.
Um rei já deposto
Teria em seu trono
O Amor como dono,
A Lei de um só nome:
Comer se tem fome!
Sonhar se tem sono!

Não há abandono
Maior que a saudade...
Nem tanta verdade
Que afogue o talvez!
Chegada tua vez,
Procure ser franco,
Busque um verso manco,
Escreva a mentira,
Coloque-a na mira
E a rasgue, num tranco!

Um papel em branco
É suficiente
Prum verso inocente
Vir sem ser chamado.
Um peito cansado
Que teme a mudança,
Não ama nem dança!
Não cumpre sua meta...
Não vive, vegeta!
E nunca descansa.

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Escolha


A Escolha é punhal enferrujado
a ferrugem é sangue ressequido
ressentido das mil encruzilhadas
tão distante dos becos escondidos

Há os que amam as ruas sem saída
os que passam a vida sobre trilhos
já conhecem a volta antes da ida
e assobiam somente os estribilhos

Já conhecem de cor a paisagem
têm no armário seus sacos de migalhas
nem cogitam pisar além da margem
e só sobem pra jogar as toalhas

Nesses tantos, eu já não acredito.
Fazem por merecer a sua bolha
Prezam pelo silêncio em pleno grito
Já escolheram não ter nenhuma escolha.

Uns se lançam aos ventos passantes
submetidos à direção alheia
marionetes de mentes repugnantes
desconhecem o que o coração anseia

No tempo cruzadores de guinadas
sobressaem aos pífios desistidos
pois na Escolha das lutas travadas
desbloqueiam os muros construídos

O punhal é perene ferramenta
extensão do braço do guerreiro
e pra aniquilar qualquer tormenta
desembainhá-lo ante ao espelho

(Rodrigo Sestrem e Soluz Terrarium)