sábado, 29 de novembro de 2008

Depois do samba

Mas e quando a gente cansa?
Como é que se faz?
Correr atrás, seguir em frente,
tudo é urgente, tudo é demais...

Mas e quando a gente chora?
Como é que se faz?
Enxuga o rosto, finge o sorriso,
apaga o aviso, disfarça o gosto...

Mas e quando a gente aceita?
como é que se faz?
Deita e espera, liga a tv,
olha e não vê que é vem a fera...

Mas e quando a gente aceita
que cansou
de chorar?

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Paradigmas

Eu já ouvi dizer que ele era chato...
Às vezes até é... às vezes, nem tanto...
Que tinha uns monstros famintos nas pontas...
Engolindo navios, mas não garanto...
Mas se o mundo é redondo há tanto tempo, 
Porque que ainda cagam os quatro cantos?

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Mulher

Foi quando eu a vi chegando.
Via apenas seu vulto. Estava longe, muito longe, mas eu sabia que era pra mim que ela olhava.
Pra mim, no meio da multidão de pessoas e pessoas que havia ao redor, era pra mim que ela olhava.
E eu pressentia que apenas eu a via.
Linda. Linda. Seus cabelos eram negros e belos e longos, como as noites de estrelas das noites da ilha.
Seus olhos, negros como os negros cabelos noturnos. Linda.
A multidão continuava seu caminho na direção do vazio de cada vida que dela fazia parte, vazios que se encontravam no mesmo lugar.
Ninguém percebeu a mulher chegando.
Só eu.
Ela também parecia não ver o mundo de gente ao meu redor, seus olhos eram guiados para os meus, e o frio da noite crescia como crescia o desejo de olhar para sempre aqueles olhos.
Olhos negros e belos e distantes.
Mas cada vez mais perto.
Foi quando ela me disse "Siga-me".
Não era uma ordem, mas não pude negar.
Quando toquei sua mão macia e fria, entrelaçando meus dedos nos seus, já não enxergava mais o rebanho de indivíduos que agora há pouco ao meu lado perambulavam.
Éramos apenas nós dois.
A mulher e eu.
Perguntei-lhe "Quem é você" e ela, calada, disse "A Vida".
Sorriu.
Sorri.
Foi quando paramos à beira do mar, e ela, de repente nua, abraçou-se a mim, de repente nu.
Corpos nus e frios e quentes de desejo.
Seus olhos diziam "Beija-me" e os meus resistiam.
Pensei na multidão, que podia estar assistindo àquele espetáculo inusitado, mas multidão não mais existia.
Ela disse "Antes pensar em seus amigos, em sua gente".
Pensei.
E senti saudade, e senti o amor crescer ao redor de nós, e do mar, e do firmamento.
Linda. Linda e nua.
Sonhos passam por nós em nossos sonhos, sonhos belos e incríveis.
Mas aquele sonho era maior.
Linda e nua. Linda.
O frio aumentava, mas já não mais o sentia.
Seu abraço aquecia meus pensamentos, e meus pensamentos aqueciam nosso abraço.
Falei "Quero te beijar agora".
Seus lábios tocaram os meus, e sua língua roubou meus sentidos.
O mundo girava, parado, estático, mas girava com a velocidade da luz.
Luz que emanava de seus cabelos negros, de seus olhos negros.
Perguntei-lhe, finalmente "És A Vida ou A Morte".
Respondeu-me apenas "Sou".
Sorriu.
E me levou de mãos dadas pela estrada que surgiu no mar.
Nasci.


(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mar Bravio

Mar bravio, fios de espuma...
Conte uma, duas, três!
Cante as ilhas de uma vez,
Mire o Sol, antes que suma!
Admita, aceite, assuma
Que a saudade te agride!
Que a distância coincide
Com a próxima aurora...
E se a hora te devora,
Não demore mais, duvide!


Ame a interrogação,
Tenha sempre outra pergunta.
Com tanta mentira junta,
Vale a pena ter na mão
O talvez, o sim e o não,
Pra que, antes que seja tarde,
Dialogues, sem alarde,
Preparado e prevenido,
E encontres, escondido,
O olhar de uma Verdade.


Equilibre-se na crista,
Surfe a vida devagar.
A Verdade como par
Está lá, ainda que assista.
Se cair, não, não desista!
Mire o olhar que te aguarda,
Que o sucesso já não tarda,
Pois o mar bravio te ama!
Na praia, a criança chama,
Vai ao mar, mergulha, nada.


Mas a água é traiçoeira,
Nem bem cai em seu domínio,
A Verdade, em seu fascínio,
Cai nas mãos da brincadeira!
Distancia-se da beira,
Entrega-se à imensidão.
Sente vir do coração
A vontade de ir ao fundo...
Olha o céu, respira o mundo,
E mergulha, busca o chão.


E assim tentas, já em vão,
Alcançar a mão pequena
Que afunda sem ter pena,
Que condena tua ação.
Tu te entregas à ilusão
De que a Verdade respira
Ar e água, Tinta e Lira,
E que a poesia basta
Pra vencer uma já gasta,
Mas ainda viva mentira.


Te retiras do oceano
Trazes à tona a verdade
Em teus versos sem vontade,
Em tuas rimas por engano.
Ainda assim, não causas dano
Aos caminhos dessa vida!
Lá do fundo, comovida,
A Verdade te agradece...
Em seguida, te esquece!
E também segue esquecida...


Algum dia, outro amador,
Poeta por natureza,
Há de encontrar, com certeza,
A Verdade e o Amor.
Num mar bravio sem calor,
Ou nas ilhas que contar...
Não importa em que lugar!
Basta mergulhar sem medo,
Desvendar outro segredo,
Pra Verdade respirar.


(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Grãos de Poeira

Mudança que assusta,
Ainda que agrade
Viver da saudade
Que vem quando vai!
A terra se esvai
Gerando uma nova,
Peito posto à prova
Passa com louvor
Vivendo o amor
Em verso ou em trova.

A vida te aprova
Se ousas sonhar
Se buscas no ar
Os grãos de poeira.
Se pulas fogueira
Sem queimar os pés,
Se vais ao convés
Pra içar tua vela...
Se à moça mais bela
Tu mostras quem és!

Então nem mil fés
Seriam o bastante
Pra o riso constante
Riscar do teu rosto.
Um rei já deposto
Teria em seu trono
O Amor como dono,
A Lei de um só nome:
Comer se tem fome!
Sonhar se tem sono!

Não há abandono
Maior que a saudade...
Nem tanta verdade
Que afogue o talvez!
Chegada tua vez,
Procure ser franco,
Busque um verso manco,
Escreva a mentira,
Coloque-a na mira
E a rasgue, num tranco!

Um papel em branco
É suficiente
Prum verso inocente
Vir sem ser chamado.
Um peito cansado
Que teme a mudança,
Não ama nem dança!
Não cumpre sua meta...
Não vive, vegeta!
E nunca descansa.

(Rodrigo Sestrem)