sábado, 24 de janeiro de 2009

Grito no Canto

Teu silêncio é um grito que me cega
e é tamanha a entrega que me queima
é a chama de outro menino que teima
em deixar cair fogo, e nunca pega.
É o mundo que roda e não sossega
fica tonto e tonteia toda a gente
e a razão, de tão certa, tá demente
já não sabe chorar sem fazer bico
e eu, cansado, de besta, ainda fico
esperando o que já tá lá na frente.

E o meu grito é tão mudo que não muda,
não transforma o vazio ao meu redor
é tijolo que, ao vento, vira pó
é um herói suplicando por ajuda.
E não há mais nenhum deus que acuda
são todos ocupados com o futuro
eu tentei, chamei todos, sério, eu juro,
mas não houve resposta ao meu chamado
Versos não valem um tostão furado
e ainda são responsáveis pelo furo.

Te convido, então, pra fazer coro,
pois quem sabe se assim alguém escuta,
e escutando, nos vê, e sem disputa
nos coloca no colo sem agouro.
Num instante, apaga o desaforo
e nos dá um xarope pra garganta
Numa cura que nunca adianta
mas que acalma e ilude o nosso peito
e no amanhecer de um outro jeito
ao invés de gritar, a gente canta.

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Pra Falar da Bahia (Música)

Pra falar da Bahia, Mainha,
tem que falar do mar!
Pra falar da Bahia, Mainha,
tem que falar do mar da Bahia!

Da cor de Amaralina
olhos da menina
que amei sem saber nadar...
Da cor de Itapuã
tarde, noite ou manhã,
e um farol carrossel do mar.

Pra falar da Bahia, meu nego,
tem que falar do Abaeté.
Pra falar da Bahia, meu nego,
tem que falar do Abaeté!

Da cor de uma lagoa
da pele tão boa,
tão preta, mulata em flor.
Da cor de tanta areia
que a pele clareia,
tão branca que sobra cor.

Pra falar da Bahia, meu rei,
tem que ter acarajé...
Pra falar da Bahia, meu rei,
tem que ter acarajé e abará!

Da cor desse dendê
que eu derramo em você
que é só pro teu sabor pegar!
Da cor dessa cocada
da pele queimada
tentando te imitar!

Pra falar da Bahia, seu moço,
tem que falar da fé!
Pra falar da Bahia, seu moço,
tem que falar da fé da Bahia!

Da cor desse terreiro
do povo guerreiro
banhado de orixá!
Da cor sem não nem sim
subindo até o Bonfim
numa missa pra Iemanjá!

Pra falar da Bahia, minha linda,
é preciso falar da mulher!
Pra falar da Bahia, minha linda,
é preciso falar da mulher da Bahia!

Da cor de jenipapo
é mais que um sopapo
os lábios de uma baiana
Da cor de uma saudade
é o cheiro que invade
é o doce do caldo de cana!

Pra falar da Bahia, amigo,
basta falar de amor.

(Rodrigo Sestrem - Poesia musicada por Taís Salles)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Oito ou Oitenta ou Oitenta e Oito ( 08/01/09 ) (Música)

Ou mora no térreo ou na cobertura
Ou tu anda nu, ou tu usa armadura
Ou ama a pureza, ou vive a mistura
Te entrega à doença ou vislumbra a cura
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

Não dá pra ser calmo, e assim mesmo amar
E nem ser poeta e se analisar
Criar uma lista, mas não anotar,
E aceitar o Caos pra tentar arrumar,
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

Ou tu pula o muro, ou se encosta e cochila,
Ou vai só com corpo, ou então enche a mochila
Ou entra no fim, ou então fura a fila!
Ou tu é costela ou assume que é argila!
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

E não me convença a ficar confuso
Ou não me ofereça, senão eu abuso!
Se eu sou inocente, então eu acuso!
E como tá gasto se eu quase não uso?
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

Ou tu diz que ama, ou deixa ir embora
Que o tempo só pára pra passar a hora
Não dá pra, de dentro, respirar lá fora
Ou fica calado, ou diz logo agora!
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

Se o oito é pouco, vai logo pro oitenta,
Se dá pra ser hexa, não basta ser penta
Não corre os cem metros se tu não agüenta
Se nem maratona, porque não se senta?
Pois tudo que é médio
Faz rima com tédio

(Rodrigo Sestrem / Taís Salles)

Irará ( 07/01/09 )

Será que irá sarar
A dor doce e dourada
De moça enamorada
De cantador sem par?

Será que irá cair
De queda amortecida
De morte aborrecida
Talvez sem se ferir?

Será que Irará?
Pousada na calçada
Quem dorme, escuta nada.
Quem vive, cantará!

Será que irá correr
Sem completar a linha?
A Vida ainda engatinha,
O Amor tá pra nascer!

Será que irá contente
Contando cada passo
Medindo tempo e espaço,
Ou insensatamente?

Será que Irará?
Pisada em plena roda
Certeza não se poda
Quem ama, entenderá!

(Rodrigo Sestrem - Soluz Terrarium)

Brincadeira Nova ( 06/01/09 ) (Música)

Poesia derramada,
Cambalhota em descarrilho,
Saudade em estribilho.

Parceria nessa estrada
Cada um pôe um ladrilho.
E a estrela descobre o brilho

Da canção desenfreada.
E um moço lá distante
Vem alegre e cantante
Me contar a novidade,
Que é de verso que se vive
Nesse mundo de saudade.

Sem saber que, na verdade,
lá distante é aqui do lado
E a distância é só poeira
E a certeza que me invade
É a de um mundo já rimado
Comandando a brincadeira.

E a gente dança ciranda,
Canta poesia, cata alegria
Sem nunca cansar.
A gente pula fogueira
Roda pião, escreve a canção
De menina ninar.

Menina, dorme tranqüila
O Amor não tem fila, e a luz que cintila
É o mesmo luar.
Menina, a lua não mente
Clareia contente a vida da gente
Se a gente deixar.

(Rodrigo Sestrem - Maíra Guedes)

Entre um Verso e um Amor ( 05/01/09 ) (Música)

Sinto a força de algum verso
No horizonte ou mais além
Cá do alto é o inverso
Dos olhos de quem
Já não vê, já não crê.

Busco o verso no horizonte
Na beira de um caldeirão
Creio estar lá embaixo a fonte
Onde vou mergulhar minha mão
Machucada, esquecida,
Depois que escreveu alguns versos
Que o horizonte enviou...

Veja a flor da laranjeira
Desabrochando o baixio
A garça cortando o vento
E os igarapés se enchendo de luz...

Busque nesse horizonte
Um caminho pra trilhar
Na beira desse destino
Tal qual um menino
Na barra a sonhar
Na prosa do tempo
Uma flor, entre um verso e um amor,
É a vida a passar...

Canta o verso que eu te dei
Me diz quem é você!
Sou um pássaro cantor
Por que me escolheu?
Porque a vida tem seu tempo
O tempo não passou, não disse nada que eu queria ouvir!
Me diga o que vc quer ouvir!

Meu caminho se perdeu
Não deixe de sonhar
Já lavei as minhas mãos
Então podes cantar
Minha voz explode ao vento!
Então, chegou seu tempo, liberte as asas e podes partir!
Já tenho asas, não vou mais cair!

(Rodrigo Sestrem e Maviael Melo)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Em Cena ( 04/01/09 )

E a tal Verdade?
Alguém viu? Alguém pegou?
Eu nunca vi, mas sei que existe por aí.
Como caiporas, lobisomens de algum mato,
Assombrações, botos, boitatás e sacis.

Ando nas ruas,
Olho os becos mais escuros,
Meço e apuro cada canto do lugar
Espreito frestas, desço em bueiros, subo muros
Mas a tal Verdade não tá lá.

Alguém me avisa
Solta um grito, me cutuca
Mas me salva da arapuca
Que tá sempre por um triz!
Não deixa o sono
Me vencer, me dá rasteira
Me derruba da cadeira
Dá um soco em meu nariz!

Atua e canta
Tenta a tua sorte cega
Nega o medo, pula e pega
E não solta nunca mais!
Esquece a busca
Mente, engana, até canastra
Que a Verdade se alastra
Na agonia, já sem paz.

É nesse instante
Que a tua chance pinta
E a verdade vira a tinta
Que disfarça o teu sorriso
E qual palhaço
Já no fim de sua cena
Esquece o riso, a dor e a pena
E a agarra sem aviso.

E é entre os dedos
Já presa na tua teia
Que a Verdade vira areia
Pra escorrer sem nem te olhar...
Foge sorrindo
Pulando quase sem pressa
Ciente de que começa
Outra história pra contar.

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Desinvenção do Amor ( 03 /01/09 )

E se a gente passasse por ali
como quem sempre passa e nunca vê
e o menino com fome, sem querer,
nos olhasse com olhos de faquir.
Diz como é que a gente ia reagir
ao notar que existe alguém do lado
que te grita, ainda que calado,
e você não escuta por cegueira
os teus olhos de vidro e de poeira
taparam teus ouvidos de tapado.

E se a gente, ao passar, fosse parado
pela voz do menino de papel
na magreza translúcida de um véu
enxergássemos o coração minguado
na batida de um tambor sem gingado
no ronco da barriga junto às costas
tentaríamos ouvir suas propostas?
Buscaríamos o atalho mais decente?
Ou apenas seguiríamos em frente?
Urubus, façam já suas apostas!

E se a gente fosse aquele menino?
E se ele me chamasse de pai?
Diz pra mim como é que se distrai
algum peito vazio de destino?
E se o olho infantil fosse assassino
pra roubar uns papéis de algum valor
Diz como chamarias o horror
de um crime predito pela fome
Eu não posso pensar em outro nome
que não seja "Desinvenção do Amor".

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ofícios ( 02/01/09 )

Era uma vez um menino...
pensando bem, eram várias vezes esse tal menino,
pois ele fez todas essas coisas mais de uma vez.
Ele via o mundo de um outro jeito,
tudo era mágico e comum,
pois o comum era ser mágico.
Os milagres eram chamados cotidiano,
e os sorrisos eram o estado de repouso de cada rosto.
Isso só ele via. Só ele sentia.
Quando uma onda quebrava na praia,
lá ia ele tentar consertar.
Descobriu que o mar era feito de vidro,
e que a areia da praia era esse vidro quebrado
em cada onda...
Entendeu assim o quão velho era o Mar...
Quando uma estrela caia, 
lá ia ele procurar pra jogar de volta...
Nunca achou...
Descobriu que os pedidos que fazia
deviam estar enterrados com cada estrela...
Não entendia esse suicídio estelar, 
mas aceitava... talvez fosse a vontade de nadar também.
Quando viu uma estrela do mar,
entendeu que elas não caiam, mas mergulhavam.
E ficou tranquilo.
Um dia, ele conheceu uma menina.
Ela também sorria descansada
e também olhava o Mar
e também corria atrás das estrelas.
Numa coragem de menino,
foi falar com ela.
Quando os olhos se encontraram,
ele viu o mundo inteiro na pupila,
e eram dois mundos nos olhos da menina.
E não conseguiu reagir quando ela mergulhou na primeira onda,
e sumiu.
Hoje, crescido, ainda menino,
ele já não tenta consertar as ondas,
nem corre atrás de estrelas.
Ele anda pelo mundo,
em versos,
rimando os passos,
marcando estrofes,
aceitando o ofício de Poeta,
com o único e simples objetivo
de achar a sua menina de um só dia
chamando pelo nome dela:
Poesia!
Poesia!

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Tá Certo, errar é Um Ano ( 01/01/09) (Música)

Pois talvez seja a brincadeira mais sem graça
essa de um tempo que passa
sem poder rebobinar...
Passa com pressa, não vê o banco da praça
e ainda sorri de pirraça
sem coragem de encarar...

Pois talvez seja a certeza mais doída
essa de que além da ida
a volta já tá comprada...
Com a viagem de retorno garantida
é como se a própria vida
vivesse de hora marcada...

Pois talvez seja a verdade mais doente
essa de que é só a gente
que decide o tal destino...
Como se os óculos não precisassem da lente
e crescer fosse somente
ser gigante ainda menino...

Pois talvez seja o poema mais sem jeito
e o verso mais mal-feito
de um poeta que voltou...
Mas, mesmo assim, ainda que nunca perfeito,
dessa forma eu aceito
mais esse outro que chegou...

Pois talvez seja, finalmente, o novo ano,
o sucesso desse plano
que algum dia alguém pensou...
Mesmo que seja somente mais um engano
não faz mal, é tudo humano,
e o que vem, ao vir, passou...

(Rodrigo Sestrem - Musicada por Otoni Costa Filho)