terça-feira, 24 de março de 2009

No encontro dos pontos cardeais

Se a beleza não tivesse segredo,
se os olhos não fossem dois faróis,
se a vontade não encontrasse a voz,
ou se o amor resolvesse dormir cedo.
Se os sorrisos se encolhessem de medo,
se escondendo em armários tão normais,
e aceitassem a inércia como paz
sem provar o macio azul de um beijo,
onde é que restaria algum desejo?
No encontro dos Pontos Cardeais!

Há de haver o tempero do sotaque,
há de brotar das peles outro tom,
e o sabor do suor sobre o batom
é motivo bastante pro ataque.
A distância é uma régua de araque,
que não sabe que já não é capaz
de deixar qualquer coração pra trás.
Hoje o Sul dorme abraçado com o Norte,
hoje eu sei que o Amor nasce mais forte
no encontro dos Pontos Cardeais.

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Tupi faz Tudo (Música)

E era um pife
Tu pifa
Tupi fazendo o som
E era um pífaro fino
Farejador
Fareja o furo
Tapado, furado
Furacão!
E tá pifado
E é festa
Pífano Chão

E era um pife
Gol pifa
Golpe falando assim
E era um pifa no velho
Sol do sertão
Ser tão soprado
Que eu sopro
Só pra soprar no fim
Quem tá afim
Sopra o pife
E pifa no chão

E pisa o pó da terra até pelar o pé no chão!
E tupyzando até parece um pirilar
Pinica capa de pata de caboclave em fá
Careta reta arretada de cá pra lá!

E era um pife
Tão velho
Pifando sem saber
Que pra pifar sem pifar
Basta ser quem é
E em pleno inverno
Eu tô nu, de capote
No verão
Prima ver antes
Que a chuva
Pife o Noé

E então, não pife
Teu pife
Apenas por pifar
E quando pifa lá muito
Diz por favor!
Que todo furo
É escuro igual
Futuro é
Tupi faz tudo
Pro mundo
Nunca pifar.

(Rodrigo Sestrem / Leandro Fuloresta)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Eletro ou Estático

Às vezes, é como se um raio caísse na minha cabeça...
dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar...
mesmo assim, prefiro arriscar outro choque
que ficar parado...

(Rodrigo Sestrem)


Naldo, o Rei (ou No Truque!) (Música)

Me dá um mês que basta um mês preu fazer tudo!
Me dá um mês que basta um mês preu resolver!

Em trinta dias, eu esculpo um Redentor,
em vinte e nove, eu acho um novo continente,
num Fevereiro, eu viro o melhor ator,
em vinte e sete, eu como a fruta e a serpente.

Em vinte e seis, já tô formado em medicina,
em vinte e cinco, sou piloto de avião,
em vinte e quatro, eu choro e encho uma piscina,
em vinte e três, traduzo a Bíblia e o Alcorão!

Em vinte e dois, fundo uma ONG e salvo o mundo,
pra eu ir pra lua, basta me dar vinte e um!
Em vinte, eu bebo o oceano até o fundo,
em dezenove, eu desbanco o Olodum!

Basta dezoito pra eu fundar um novo império,
e em dezessete, eu invado outros cem!
Em desesseis, eu desvendo qualquer mistério,
em quinze, eu monto a ferrovia e cuspo o trem!

Me dá um mês que basta um mês preu fazer tudo!
Me dá um mês que basta um mês preu resolver!

Duas semanas, e eu conserto o dicionário,
em treze dias, crio outra enciclopédia,
em uma dúzia, desvendo o Santo Sudário,
em onze, aumento aquela tal de Idade Média!

Me dá dez dias que eu conserto a Monalisa,
e basta nove pra eu montar a Torre Eiffell,
em oito, ponho reta a torre lá de Piza,
numa semana, pinto de rosa-choque o céu!

Em meia dúzia, eu ergo dois Empire States,
em cinco dias, faço chover no sertão,
em quatro, eu planto uma azeitona e colho o azeite,
são só três dias preu vencer uma eleição!

Me dá dois dias que eu prometo e te garanto
que alfabetizo todo o povo brasileiro!
Viajo o mundo pra cavar um quinto canto,
e, desde hoje, amanhã já sou o primeiro!

Me dá um mês, que basta um mês preu fazer tudo!
Me dá um mês, que basta um mês preu resolver!

(Rodrigo Sestrem - poesia musicada por Léo Pinheiro)

terça-feira, 17 de março de 2009

Ensinando a pescar...

Pega a rede e lança
que o mar tá pra peixe
Todo verso cansa,
então não se queixe!

Pesque uma outra rima
dê banho na métrica
deixa de ser cética
pega a onda por cima

Surfa a poesia
rima um jacaré
foi não foi, já é
alguma folia

Puxa a rede agora
vê o que ela traz
Mudança se faz
sem olhar a hora...

Garanto um cardume
Prometo uma ceia
Deita já na areia
Durma e não se arrume

Quando acordar,
terás novos versos
Mesmo os mais perversos
hão de consolar

Pois a novidade
veio dar a praia
Pesca a liberdade,
e caia na gandaia!

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 14 de março de 2009

Samba Trindade (Música)

De vez em quando ela sorri
me olha calma e enxuga o rosto.
E o brilho branco é o nervo exposto
lembrando aonde eu me feri.
E o vinho que eu ofereci
é derramado na garganta...
Logo depois ela levanta
pra se perder pela cidade
é uma danada, essa Saudade...
Pisando a flor que ela planta.

De vez em quando ela me diz
e a voz sussurra outro segredo...
e eu juro que não sinto medo:
no fundo, eu sei que é uma atriz.
E a canção que eu nunca fiz
é uma risada de minha infância
é uma danada, essa Distância
Sempre tão longe e por um triz.

De vez em quando ela adormece
e então suspira um sonho doce...
e assim, sem ser, como se fosse,
parece alguém que me esquece.
Mas sempre um susto aparece
pra despertar essa menina...
e o olhar me desatina
e ela gargalha atrevida
é uma danada, essa tal Vida,
Corda tão forte, e curta, e fina...

(Rodrigo Sestrem - cordel transformado em samba por Thales Jr. do Triângulo)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Longe do Chão (Música)

Faz de conta assim,
faz de conta que era você...
Faz a conta então,
conta até um milhão que eu já vou me esconder.

Se quiser me achar
vai me procurar bem pra longe do chão!
Que eu peguei um cometa,
saltei numa estrela
e parei em Plutão!
Dei um pulo no Sol,
preparei meu anzol
e fisguei um verão!

Faz de conta assim
diz que agora já era eu.
E eu era o caubói
o maior herói que algum dia nasceu.

Era o mais veloz
e com a minha voz
faço o mundo tremer!
Se eu soltar um sussurro
causo um terremoto
que afunda o Japão!
E com um grito bem forte
o sul vira o norte
e o céu vira o chão!

Era uma vez um furacão
que não queria mais rodar
Já tava tonto...
parou e pronto!
Resolveu descansar.
Mas enjoou,
quis voltar,
mas não viu vento nenhum...
Se arrependeu,
quis assoprar,
Mas hoje o coitado não passa de um pum!

(Letra de Rodrigo Sestrem - Música de Léo Pinheiro)

domingo, 8 de março de 2009

Mãe da Criação

Fui eu quem trouxe à luz os dois infantes
que levaram por nome Tempo e Pressa.
Sou culpada, admito, ré confessa,
mãe de qualquer Depois e todo Antes.
Com a força de milhões de elefantes
eu carrego o planeta em minha mão.
Faço a bola girar igual pião
apoiada na ponta do meu dedo.
Nessa hora, eu revelo o meu segredo:
mais que Pai, sou a Mãe da Criação.

A Saudade nasceu no mesmo dia
em que fiz brotar firme a Distância.
São melhores amigas desde a infância
são amantes do Acorde e da Poesia.
Quando criei a fôrma da Alegria,
na euforia, deixei ela no chão.
Aproveitando a tal situação
a Tristeza também se fez, sem medo.
Vou assim revelando o meu segredo:
mais que Pai, sou a Mãe da Criação.

A Verdade, eternamente menina,
goza a sua inocência de criança
basta pôr pés no chão, e ela já dança,
num sorriso que aprende e que ensina.
Nem percebe os olhares de rapina
que a Mentira lhe lança, sem perdão.
São o espinho e a flor de um só botão,
fruta doce que traz consigo o azedo.
Hoje lanço pro mundo o meu segredo:
mais que Pai, sou a Mãe da Criação.

Trago a história pintada nas retinas
cores leves e fortes misturadas.
O vermelho das rosas ofertadas
é o mesmo das vis carnificinas.
Belo verde das matas e campinas
também veste e disfarça o batalhão.
Fiz do Cosmos minha grande exposição
qual criança pintando algum lajedo.
Rabisquei pelo mundo o meu segredo:
mais que Pai, sou a Mãe da Criação.

O Amor é meu filho mais antigo
é ator de encarnar mil personagens.
Muda de figurino e cria imagens:
pai, amante, herói, irmão, amigo.
Ele é céu estrelado e é abrigo,
é guiado e se vai sem direção.
Vive, morre e renasce como o grão
que faz brotar do peito um arvoredo.
Só quem ama compreende o meu segredo:
mais que Pai, sou a Mãe da Criação.

(Rodrigo Sestrem)