quinta-feira, 30 de abril de 2009

Presente

Pois pra ser poetisa, não basta querer
Não é suficiente aprender a rimar
e só métrica é pouco, é nada, não há
a estrofe é vazia, a sina é não ser

Pois pra ser poetisa, é preciso ser mar
ter a pele de areia, o olho de sal
ter ondas no cabelo e sorrir carnaval
e com os pés na espuma, dançar e dançar

Pois pra ser poetisa, é preciso ser mais
tem de saber pintar com a tinta do peito
e, de olhos fechados, arranjar o jeito
de acertar o papel e esquecer o que faz

Pois pra ser poetisa, é preciso esquecer
e esquecer é lembrar do futuro que vem
pois se queres poeta, isso você já tem
Pra você ser poetisa, só bastou nascer

Pois já és poetisa, mesmo sem querer
e a rima te segue qual bicho sem dono
e os versos são avós te ninando o sono
te contando as mentiras sutis pra crescer
E assim, segue a tua jornada, e não vê
que o mundo não mais te oferece papel
não preocupa, não liga, não faça escarcéu
que a tua poesia se escreve sozinha
e sorri, não te esquece que a lua era minha
e eu te dei pra teu verso brilhar lá no céu.

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 28 de abril de 2009

No caminho de volta

Sabe lá quanto falta pro começo?
Qual o preço pra falta não contar?
Qual o lar sem janela, porta ou tranca?
Quem arranca sem pensar em frear?

E pensar que a menina vai crescer,
E vai ser a menina que cantava...
Que amava a avó que já partiu...
E que viu um poeta que sonhava...

E a estrada, que é cada vez mais curta?
Quem me furta a vontade de chegar?
Quem tá lá do outro lado da chegada?
Que piada ainda me faz gargalhar?

Qual a flor que ainda afeta qualquer peito?
Qual o jeito que garante algum sucesso?
E há acesso proutro sonho na lida?
Uma vida que não me cobre ingresso?

E pensar que a avó era a menina
E já era a avó que ainda brincava...
Já cantou tanta infância e tanta sina,
Já amou um poeta que sonhava...

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Não bula com Susana, ou Susana Bole!

Nós somos!
Não Susana!
Não bula com Susana, ou Susana bole!
Nem ria de Susana, ou vai se arrepender!
Imagem é miragem, é viagem, é nada!
E a voz que te ensurdece vem do feio, irmão!

Nós somos Feios!
Não Susana!
Não bula com Susana, ou Susana bole!
E cada riso, em vez de humilhar, acende!
E ascende aos céus a voz de anjo da mulher
que é linda aos teus ouvidos, e que ri ainda,
e finda ignorando a tua humilhação!

Nós somos Feios e Idiotas!
Não Susana!
E o susto é até presente, é pouco, é quase nada!
O que a gente merece é um soco no olho limpo,
quem sabe uma cegueira vá salvar o mundo?

Nós somos Feios e Idiotas e Cegos!
Não Susana!
Não bula com Susana! Ou Susana bole!
E Susana Ri...
E Susana segue...
E a gente cegue...
E a gente ouça...

Bula com ela não!

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 19 de abril de 2009

Bailar Índia (Música)


Baila, Índia Bailarina,
Vai lá pro meio da mata
Dança o verde e desacata
as verdades mais vigentes

Aproveita e me ensina
a soltar minha gravata,
a despir a minha bata
a sorrir mostrando os dentes.

Baila, Índia Bailarina,
Vai lá onde o Sol cochila
Dança a luz que ainda cintila,
chora a luz que já apagou.

Aproveita e me ensina
que pra viver não tem fila
e que o Sonho é uma vila
onde a Dor nunca morou.

Baila, Índia Bailarina,
Vai lá onde a Lua nasce
Dança a noite e lava a face
com o sereno que cair.

Aproveita e me ensina
que por mais que eu evitasse
que o Amor me alcançasse
não tinha como fugir.

Baila, Índia Bailarina,
Vai lá onde tu quiser!
Dança o mundo e o que vier
que os teus passos são a estrada!

Aproveita e me ensina
que a Verdade é uma mulher
que só ama quando quer,
e que só quer ser amada.

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 18 de abril de 2009

O Tempo não tem Bexiga

Que bobagem... tudo bobagem...
Na verdade, acho que nem eu acredito!
Vai saber quem tá certo? E vai saber se isso importa?
Enquanto isso, segue o ponteiro apressado,
fugindo sabe-se lá de que bicho-papão!
Eita troço com energia! Não pára nem pra mijar, esse Tempo!
Às vezes, acho que Ele é que é esse velhinho lá em cima,
olhando pra gente rindo...
Deve até se engasgar de tanto rir!
Vai que quando chove, é ele babando e chorando de gargalhar!?
Eita, Velho sacana esse Tempo!
Mas deve ter lá suas razões... afinal, cheguei aqui agora,
quem sou eu pra entender alguma coisa?
Mas que é bobagem, é...
Queria poder olhar na cara do Velho, e dizer:
"Ei, Velho! Descobri teu segredo! Sei que você fica aí, de olho na gente,
se divertindo! É tudo bobagem!"
"Descobri, Velho! Acho que sei o que você espera da gente!"
E ele, talvez, risse de mim,
mais ainda do que ri de quem não acha que descobriu nada...
Carpe Diem, Carpe Diem, Carpe Diem!
Eita, que latim difícil de cumprir, Velho!
Será que ainda dá tempo?
Acho que só falei bobagem...

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Circo de Rerrir

Era um rosto pintado, sorriso vermelho,
e nos cabelos verdes havia uma flor...
e na roupa folgada, rasgada, às avessas,
um coração pintado de lápis de cor...

Por trás da máscara do palhaço, o rosto de um homem...

E o chicote berrava, caindo no chão,
e a fera urrava, sentindo o ferrão,
e os dentes brilhavam, e rangiam, trovão,
e a vida pendia da palma da mão...

Por trás da bravura do domador, o medo da morte...

E as bolas voavam, buscando algum céu,
e os desenhos no ar formando uma obra-prima
e nas mãos sem parar, cada dedo um pincel,
vão de um lado pro outro, de baixo pra cima

Por trás do equilíbrio do malabarista, o balanço do peito ferido...

E eram cartas trocadas, marcadas, sumidas,
e a moça, cortada ao meio, levita,
e volta, inteira, tendo sete vidas,
e o peito mais lindo é o de quem acredita...

Por trás da ilusão do mágico, a matemática do truque...

E é tudo ilusão, tudo de mentira
ou não, é verdade, só que de outro jeito?
de que vale o circo, se o sonho é desfeito?
pra que põe o riso, se a lágrima o tira?

Mas a verdade é que por trás da realidade do mundo,
tem sempre uma lona de um circo pra nos salvar...

(Rodrigo Sestrem - inspirado pelo cordel "Circo de Desrir", de Soluz Terrarium)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vegetariando

Cansei...
aceitei que o mundo é redondamente enganado
é uma bola que nem bola é, é oval!
é um ovo que vive chocando a gente...
Ainda se houvesse omelete pra todo mundo...
Mas nem!

Cansei!
Agora só como alface, e mesmo assim não adianta.
De que me valeu virar um cágado pensante?
Se ninguém dá bola pra bola que é o mundo,
nem mesmo se a bola tá murchando,
de que adianta só comer alface e couve?
E o que tem a ver isso com aquilo?
Nada... é só que cansei mesmo...

Já sei!
Talvez baste... (e saio correndo pra comer brócolis com um bom azeite extra virgem por cima)

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 12 de abril de 2009

Pra Completar

E o espaço que falta no desenho
como é que se faz pra completar?
esse lápis sem ponta e sem grafite
serve pra algo além de atrapalhar?
não tem nenhum decalque como guia
não tem nada, só a folha vazia
no espaço em branco sem formato
o papel, rindo alegre, me assusta
eu nem sei bem direito quanto custa
e nem sei se adianta ser barato.

É o espaço que falta no desenho
que me força a escrever sem guia ou rumo
as palavras que brotam sem sentido
se contentam com o jeito que as arrumo
Mas no fundo, elas sabem ser bobagem
pensam só em curtir uma viagem
tão gratuita quanto o mundo que passa
e eu, sonhando em completar a imagem
tiro o sonho de dentro da garagem
sem saber dirigir, eu acho graça.

(R dr o Ses em)

sábado, 11 de abril de 2009

Conselho de Vizinho

Aprendi num encontro de vizinho
Rio, Bahia brotando em Laranjeira!
Tá pra nascer coisa mais brasileira
do que pife, violão e cavaquinho!
Seja côco, baião, samba ou chorinho,
o trânsito tá livre até pro rock!
Pode até duvidar, mas não provoque
quem faz som em canudo de cachaça!
Se ele der um conselho, vá e faça:
"Se beber não dirija não, mas toque!"

(Rodrigo Sestrem, sobre a frase de Carlos Malta, no Show Vizinhos - 02/04/09)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Côco Miudinho (Música)

Quem canta esse côco com a gente
quem toca com palma de mão
no peito, já planta a semente
dos olhos, já brota a nação

Eu canto côco,
canto côco miudinho
moído lá num moinho
com as pás de minha nação!
Feito das brisas
de uma flauta de taboca
faz gente sair da toca
e arrastar pé nesse chão!

Ouça o que eu digo
Juro, tô falando sério,
desvendo qualquer mistério
e desafio assombração!
Por uma chance
de soltar minha voz no mundo
não paro nenhum segundo,
me alimento da canção!

Eu canto côco,
canto côco firme e forte
sou do sul, mas vim do norte
visto a cor do meu país.
Trago no sangue
suingue lá da Bahia
e misturo na poesia
versos de vários Brasis!

A minha terra
é um país que é continente
de sotaques diferentes
mas de sonhos tão iguais
Sonhos sonhados,
esquecidos, resgatados,
encardidos, perfumados,
impossíveis, mas reais!

Eu canto côco,
baião, galope, xaxado,
com gente boa do lado
eu canto tudo o que quiser!
Sou cantador
do verso pronto e do improviso
e sei do que mais preciso
que é o do amor de uma mulher.

A voz me guia
nas estradas da saudade
pelos becos da verdade
sobre as pontes da ilusão...
Sou andarilho
e improviso cada passo
mas não saio do compasso
levo a rima pela mão!

Eu canto côco,
toco côco e danço côco
pra alegria pouco a pouco
clarear todo o lugar
A Vida passa
com sua pressa costumeira
ouve a nossa brincadeira
e pára um pouco pra dançar.

E a Vida canta
com sua voz jovem e idosa,
jatobá e botão de rosa
donos da mesma raiz
Na terra fértil
de um povo que acredita
que a tal Vida é tão bonita
que ainda dá pra ser feliz!

Quem canta esse côco com a gente
quem toca com palma de mão
no peito, já planta a semente
dos olhos, já brota a nação

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Menina do Sorriso Novo

Menina do sorriso novo,
que traz na sombra do sorriso
o riso de criança
e que quando findou sua dança
quis cantar seu hino
e, na urgência de um destino,
decidiu sonhar...

Menina do belo sorriso,
que viu a infância pelos olhos
de quem já cresceu
e mesmo assim, não percebeu
que o tempo tá fugindo
mas ela continua rindo
sem se preocupar...

Menina do sorriso leve,
é passarinho que, ao migrar,
errou de direção
seguiu as linhas de sua mão
e quis subir no mapa
sem medo, deu a cara a tapa
e se sentiu melhor...

Menina do sorriso aberto
se a tua voz ainda te guia,
pode confiar
que a tua estrada tá pra cá,
aqui por esses lados
e o teu rio grande foi trocado
por um Rio maior...

Menina do sorriso lindo,
segue sorrindo teu sorriso
até gargalhar...

Menina do sorriso novo,
pegue teu sonho e sonha rindo
até realizar...

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 4 de abril de 2009

Correnteza Carioca

Sei que é um Rio bem grande, e a correnteza
tem a força de cem Maracanãs
são milhões que só sonham em encher a rede
sejam bolas, ou peixes, ou amanhãs.
Só conseguem torcer a fé e a grito.
Quando escutam o assobio do apito
é que o barco já atracou no cais.
E desaguam no mar esverdeado
têm os olhos cansados, marejados,
mas não param de querer sempre mais.

Sei que é um Rio bem grande, e a correnteza
é capaz de cobrir o Redentor
E o abraço incompleto e eternizado
não seria tão útil ao nadador.
Não seria um cruzeiro, ainda que cruz,
e ao cruzar um farol que não tem luz
vagaria em busca de outra ilha.
E sabendo ser feito de sabão,
lavaria a cidade, na ilusão
de tentar recriar a maravilha.

Sei que é um Rio bem grande, e a correnteza
corre sempre numa só direção
na esperança de achar no oceano
a resposta que explique uma razão.
Mas o mar já cansou de tanta espera
Predador que desiste de ser fera!
Preza pelo conforto de ser presa...
Hoje aguarda a chegada da água clara...
já nem conta a distância que os separa...
já consegue dormir de luz acesa...

Sei que é um Rio bem grande, e a correnteza
é o samba escorrendo lá do morro.
Tamborins e pandeiros são as margens
a cuíca é o grito de socorro.
E no enredo molhado na avenida
cresce e dorme a Esperança, escondida,
confiando na sua proteção.
Mas mal sabe que vive vigiada,
que nenhuma das portas tá trancada,
que a parede é uma bolha de sabão.

Sei que é um Rio bem grande, e a correnteza
carregou sem pensar meu coração.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

As Aventuras de Ogirdor nas terras de Roma

Eita, que esse mundo intêro
é sertão feito de areia
é terra seca e vremeia
chorada dos ói primeiro
Até acredito em Sued
e sei que Obaid fede
a bode fio de carnêro

Mudei de nome inda onti
pruque num tinha mais jeito
o qui era meu tava feito
fiz a sesta no horizonti
Quem mi acordô foi o dia
cuns côro chei di valia
e uns ói pur ditrás do monti

Eita, que eu naisci faiz meis
busquei vredade sem sono
vi majistades sem trono
cuspindo uas ordi sem veiz
aí, descobri a Aiseóp
fugi cum ela a galope
o resto, matutem ocêis!

Quis ir pras terra distante
casá com a dona di mim
cheguei lá gritando sim!
qui nem calango falante!
Entonces, matei a soma:
se o Ateóp chega a Roma
Num qué mais segui a diante!

Hoje eu me chamo Ogirdor,
trabalho como Ateóp
moro em taipa e em verso,
casado com Aiseóp.

(Ogirdor Mertses)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um do Quatro

Aí, disseram pra ela que o mundo girava...
e ela: MENTIRA!
Por que então não fico tonta?

Aí, disseram pra ela que tudo que sobe, desce...
e ela: MENTIRA!!
Por que então não piso em nuvens?

Aí, disseram pra ela que a vida é séria...
e ela: MENTIRA!!!
Por que então que a gente sonha?

Aí, disseram pra ela que o amor machuca...
e ela: MENTIRA!!!!
Por que então que a gente insiste?

Aí, disseram pra ela que a rosa murcha...
e ela: MENTIRA!!!!!
Por que então que a gente oferta?

Aí, disseram pra ela que tudo morre...
e ela: MENTIRA!!!!!!
Por que então que a gente cria?

Aí, disseram pra ela que ela bem que podia estar certa...
e ela: Primeiro de Abril!!!!!!!!

(Rodrigo Sestrem)

Minguante

Ele achava o céu caolho
Uma lua só não bastava
Um sol apenas, tão pouco.
Sentia como se o céu
mirasse nele,
pronto pra atirar a próxima chuva.

Ele achava o céu sardento
tanta estrela salpicando o rosto
as bochechas nuas num azul escuro,
vez em quando brancas, maquiadas em nuvens.
No meio, a boca da noite,
banguela, como toda boca antiga.

Ele achava a noite triste
lágrimas cadentes, choros meteoros,
e todo pedido que fazia
era um só
pedido.
Que o Sol se atrasasse um pouco.

Ele achava o dia claro
Claro demais pra se achar alguma coisa.
Gostava do Sol, é verdade,
mas preferia vê-lo através da Lua.

Ele próprio se sentia eclipse
Refletia a si mesmo, e se escondia.
Era sombra iluminada.
Era noite dizendo: "Bom Dia"!

(Rodrigo Sestrem)