domingo, 31 de maio de 2009

Anzol e Caniço

A busca constante da nova poesia
querendo encontrar a metade do verso
que rege a harmonia do louco universo
que esconde a noite e amostra o dia
eu conto a saudade daquela alegria
que outrora fazia meu verso sonhar
buscando outra rima eu vou sem parar
trilhando as estradas no rumo da vida
já contei o tempo, dei nova partida
seguindo o desejo sereno de amar.

E o tempo contado nas mãos e nos pés
é como se fosse o barro da estrada
migalhas de sonhos que surgem do nada
são âncoras postas em pleno convés.
Não vale o espelho se sabes quem és
e a rima é que nem canivete suíço:
tem tudo e tem mais, e sem compromisso,
recorda e arruma as estrofes do mundo
Se o fim do caminho é algum mar profundo
é bom ter levado um anzol e um caniço.

(Maviael Melo e Rodrigo Sestrem)

sábado, 30 de maio de 2009

Antes do Amanhecer

Amor de minha vida,
prometa me chegar de repente!
Vem sem eu perceber, vem felina..
Vem no momento em que o amor
estiver dormindo,
e toma o lugar dele!
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa me chegar sorrindo!
Mas um sorriso simples,
sem som, sem brilho...
um sorriso que é sorriso porque sim,
e pronto...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não me dizer nada!
Vem sem voz, sem texto,
vem com beijo e pronto!
Sem palavras, sem resumo,
que nem versos são bem-vindos!
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não trazer relógio!
Vem sem hora, sem minuto
vem eterna, ainda que acabe,
que acabar não é pra agora
é só você não dar corda...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa não fazer promessas!
Vem sem sonhos, vem sem planos,
Vem na ponte de um olhar,
dorme ainda que desperta
que eu te nino e te consolo...
Mas vem antes do amanhecer!

Amor de minha vida,
prometa vir antes do amanhecer,
que a noite é nossa garantia,
que a lua é nosso sacerdote,
que o sereno é nossa água benta,
que as estrelas são nossas testemunhas.

Amanhecer é uma lenda antiga...
Acredita não!
Eu prometo...

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Passa Tempo

Dá um tempo, Tempo!
Pra que pressa?
Pra que passa?
Fica quieto!
Curte o tempo!
Deixa de agonia, rapaz!
Tem tempo de sobra pra passar depois,
curte um pouco!

Já parou pra ver um pôr-do-sol, Tempo?
Que nada!
Só fica lá, apressando o coitado,
dizendo que tem estrela na fila,
e estrela não espera!
Tem tratamento especial!

Já parou pra ouvir o mar?
Que nada!
Só fica lá preparando o terreno
pra próxima onda,
contando quantos grãos
de areia surgem a cada onda...

Já parou pra ler poesia, Tempo?
Que nada!
Fica só contando os segundos
pra saber quanto falta
pro poeta morrer...

Pois já era, Tempo!
Perdeu!
Toma vergonha e pára um pouco!
Aproveita a vida, pois até teu tempo passa, Tempo!
Esquece essa agonia, e desiste...

Poeta não morre.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Zabumba de Louco (Música)

Clareou!
Céu branco explode
alguém me acode
que o raio
já vem me pegar!

Trovejou!
Quem toca o pipoco
zabumba de louco
povo lá
do céu quer sambar!

Vai chover!
Suor que escorre
É São Pedro que corre
Atrás de
algum anjo fujão!

Tem que ver
o clarão bonito
seguido de um grito
que avisa
que o prêmio é o chão.

E cai corisco
e é o céu ficando arisco
eu não saio, eu não arrisco
eu nem pisco
que é pra não sumir!

Quando o céu grita
é o povo que agita
alguma festa esquisita
e acredita
que o céu vai cair...

Vai queimar!
Tempestade é jogo
Quando toca é fogo
e quer
carburar até o fim!

Vai parar!
A festa termina
a lua ilumina
e parece
que olha pra mim...

(Rodrigo Sestrem - Musicada por Maviael Melo)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sítio do Tio Eurico

Ei!
Opa! Tem alguém aí dentro?
Tem sim, que eu ouvi!
Lud, chama alguém pra abrir o portão!
Eles devem estar na piscina, por isso não ouvem.
Hein?
Como assim? Não abre mais?

Lembra do ovo frito no café da manhã?
Lembra, Lud?
Piscina, só daqui a uma hora!
Morcegos nas mãos, bastão no ar...
Sábado tem baba!!!!
Vamos jogar um buraquinho?
Bati! Quem dá o morto?
Pai, a partir de hoje eu sou tricolor!
E tinha um lobisomem em Londres!!

Lembra quando não dava pé?
Lembra, Lud?
Agora é minha vez de voar na rede!
Não, é minha!

Eu achava que era um pneu, mãe!
Eu pulei, e não era!
É só uma minhoquinha, Otoni!
Olha, filho, de onde sai o veneno, tá vendo?
Lud, você não lembra porque tava dormindo.

Calma, Bete!

Eu juro que o mergulho durou horas!

Tio, posso pegar a bola?
Eita, seu cabelo ficou verde, Dodô!

Kika não quer dormir comigo, Tia!
Ela morde?

Pai, vem brincar comigo?

Calma, Bete!

Quero dormir no quarto do meio!
Tenho medo de ir sozinho! Deve ter sapo!

Posso fazer represa?

O Arraiá é um lugar...

Lud, pede pra abrir o portão!
Não entendo...
Cadê o sítio que tava aqui?

"Deve ter subido junto, Guido..."

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dexter's Tune

Poema escrito enquanto ouvia "Dexter's Tune", de Randy Newman, a música mais linda do mundo. Tema do filme "Tempo de Despertar".

Esse piano que insiste...
que há mais de dez anos insiste...
mistério que invade esse peito que invade mistérios,
e, nunca desvendado, diz "vem dar uma olhada agora"...
e pronto.

Mistério do piano que persegue
e que consegue me fazer chorar.

"Bastava buscar..."
"bastava tentar..."

Mas busquei!
Mas tentei!

"E por que não achou?"

...

Mistério dos acordes que bastam
melodia mais simples
que a rosa mais simples...
e as notas que insistem
que não mudam apressadas
e bastam...
e invadem...
e me fazem chorar...

É tempo, amigo...
É tempo de despertar.

Não basta pensar que buscou,
apesar de ter buscado...
Não basta dizer que tentou,
apesar de ter tentado...
Não basta mudar uma nota
pra criar a melodia perfeita...
Não basta fingir uma rima
pra que a poesia seja feita...

Esse piano que insiste
em dizer que buscou
mais que eu...
que tentou
mais que eu...
e que me achou...
mais que eu...

(Rodrigo Sestrem)

Azul e Flimba

Hoje descobri que o céu é azuis.
Engraçado, pois desconfio que ele seja assim há algum tempo...

Perguntei pro meu pai se ele sabia disso,
e ele disse que o ozônio e tal...
Minha mãe falou que no céu
moram anjos de túnicas
azul e branca...

Como ninguém respondia,
fui perguntar a um mendigo amigo meu,
meio poeta,
e ele disse que era o mar refletido...

Mas ele é azuis!! eu dizia...
Alguém já percebeu?
Foi sempre assim?

E os mil azuis iam me tomando...
Era como se só agora o céu me azulasse!
E é tanto azul
que talvez nem sejam todos azuis...
Tenham outro nome desconhecido...
Flimba?
Será que o céu é azul e flimba?

Aí, perguntei pra um bebê
que nasceu meio sem querer
há uns dias...

Entendi.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 24 de maio de 2009

Belo e Cool

Ai de você que pensa que a poesia é paz!
Cada verso é granada, sem pino, sem dono,
estilhaça em palavras, pedaços de sílabas,
grãos duros de letras...

E o poeta é guerreiro, que treina sua pena
qual espadachim sem mestre mosqueteiro.
Se defende das dores, apara seus golpes,
sustenta sua rima, o escudo de tinta
é mais forte que o ar!

E na guerra do mundo que pensa que sonha
com a guerra de um mundo que sonha que é,
é como se o combate fosse mesmo a folha
em branco, e o tranco da bomba, a canção!
Armadura de métrica, canhão de décimas,
tanques de sextilhas, fuzis de redondilhas,
E os alexandrinos lançados pelos aviões
farão estragos nas terras de ábaco!

Lógica! Te cuida!
A tal Poesia tá em pé de guerra!
Faz tempo ela berra pedindo passagem,
seguindo a viagem por matas e túneis,
fazendo guerrilha, cavando trincheiras,
cercando por todos os lados a Razão!

E toda certeza será feita refém!
E vão confessar onde esconderam a Dúvida,
nossa Rainha Mãe!

Ai de quem pensa que a poesia é de paz!
Ai de quem acha que meu verso é de brincadeira!

Estilhaços de estrofes que falam de amor
se espalham depois da explosão das granadas
e se deixam enrustidas nas pernas, nos braços
e assim, todos os detectores vão apitar!

Essa guerra tá ganha...
só falta marcar!

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Menina do Vestido Azul

Bon Jour, Menina do Vestido Azul!

Larga o teu livro e olha pra mim...
Que Sartre que nada!
Os outros são o céu!
Te conto e te provo,
tim tim por tim tim.

Que óculos grandes você tem!
É pra fugir melhor?
Foge comigo, Menina do Vestido Azul!

Vamos pra Paris, se você quiser!

Me dá um beijo se eu escalar a torre?
Então eu escalo,
desmonto de cima pra baixo,
trago nadando o Atlântico
e monto no Brasil!
A gente pode usar de antena!

Vem, Petit Pequena?
Me conta quem és!

Larga o teu livro pra viver direito!

Mas...
quem sou eu pra te cobrar algo?
Deixei você partir
sem te mostrar teu poema...

Deixa a torre no lugar...
Deixa o Atlântico intocado...
Deixa o beijo pra outro qualquer...
Deixa o poeta aprender na marra...

De que vale ser poeta de papel?

Trocava tudo por teu beijo, Mademoiselle...

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Moça da Janela (Música)

Pai maltratando filho
Mãe com alma de madrasta
Mar vomitando lixo
Terra chicoteada
Gente gritando acode
Outros gritando espera
e a moça na janela
querendo me ouvir cantar...

E o verso que eu canto é choro
É inverso ao mundo inteiro
É o erro vindo ligeiro
tentar um solo no côro.

Ser pai já não é divino
O sangue secou sem cor
Não dá pra tirar nem pôr
nem dá pra tocar o sino.

Da mão que rege o chicote
Do mar já tão nauseado
O Amor já chega estragado
Vem pronto pra dar o bote.

Cansada de tanto grito
Minha moça da janela
Jogou fora seus livros
Rasgou a sua aquarela
E foi vigiar a estrada
Já sem esperar mais nada
Sonhando que eu era dela...

(Renato Luciano - Rodrigo Sestrem)

domingo, 17 de maio de 2009

Verso Roto

"Ah...
quando eu vi você
presa na canção
pude perceber
que teu coração
resolvia agora em meu peito morar...

Ao tocar você
compreendi o amor
ao beijar você
eu beijei a flor
que há tanto tempo em meu peito plantei..."

E Roto, depois de cantar, beijava Bela, a bailarina...
E Lorde partia...
E Bufo resmungava...
E a Bruxa ria...
E um amor começava...

E Roto amou Bela, e só...
Pois Bela já amava outro par, outro ser...
E a tela do mundo em branco, esperando
um desenho,
ficou sem pintura, sem tinta, sem cor...

E Roto amou Bela, e só...
E Bela amou Roto, de um jeito só dela,
sorria, chamava, partia, voltava,
dançava apressada, com passos de atriz...
assim, ser feliz era apenas amar...
ser amado era bônus, um prêmio, um talvez...

E Roto amou Bela, e só...
E a encruzilhada surgiu no caminho...
E Bela seguiu, e Roto seguiu,
e as estradas seguiram distância e adeus...

E Roto ama Bela, e é só...
E Bela, ferida, não lembra a canção.
O peito está bom, curado, batendo
e o peito de Roto é o dono também...

E Roto ama Bela, e é só...
E Bela tá longe, tá lá...
E Roto viveu...
e ainda grita: "Vivi!!!"

E resta a saudade...
verdade...
amizade... cadê?
verdade...
saudade...
saudade...
dade...
dade...
...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Férias Forçadas

O Homem cansou...
Ai, meu Deus, o Homem cansou!

Como pode?
O Homem de aço, o incansável, o alucinado... Cansou!

Cansou de esperar, cansou de dizer, cansou de gritar, cansou de querer?
Sabe lá!
E a Mulher dizia:
Filhos,
eu conheço o Homem!
Cuidado pra ele não cansar!
Eu conheço o Homem!
Cuidado pra ele não cansar!

O descanso assusta, né, gente?
O cansaço é morte, né, povo?

E agora?
Será que o elástico ainda serve?
Será que ainda estica e volta?
Será que só soltou da mão, ou perdeu a elasticidade e ficou frouxo?

Vamos virar bicho, gente!
Vamos virar bicho urgente!

As Férias do Homem são trabalho!
O descanso do Homem é ação!

Mãos à obra!

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 9 de maio de 2009

Solzinho

Solzinho,
vem dançar comigo?

Vem dançar um xote,
vem errar os passos,
vem cantar um mote
vem de pés descalços!
Vem que o tempo é bom
e o sol dá o tom
pra criar os laços.

Solzinho,
vem tocar comigo?

Pega o teu trompete
eu pego meu pife
o sopro promete
não há melhor grife
Deixa apenas ser
que o sol vai reger
ele tem cacife

Solzinho,
vem me conhecer?

Diz do que tu gosta,
e o que te incomoda,
se não presta, encosta,
se não serve, poda.
Pra te ver sorrir
faço o sol cair,
desinvento a roda!

Solzinho,
vem beber comigo?

Preparo a tua taça,
compro vinho tinto,
Se quiser que eu faça,
piso a uva e pinto!
Não vai faltar nada
nem água gelada
nem sol no recinto!

Solzinho...
Ah, deixa pra lá!
É vem o Sol...
Vem comigo?

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Revolução dos bichos gripados

Eita!
Nem que a vaca tussa, que num vou deixar!
Pense numa agonia!
Veja bem: num dava apenas pra ser e pronto?
Mas não!
Tem que encher o saco!
Aí, a vaca tosse!

Tenha medo!
Nem que a galinha espirre, que eu num vou pra lá!
Eu hein? Pra quê?
Veja bem: tanta coisa pra fazer, e tem que bagunçar!
"Deixa o mundo quieto, menino"!
Mas não!
Tem que estragar tudo!
Aí, a galinha espirra!

Pois é!
Nem que o porco assoe o nariz, que eu não desisto não!
Oxe! Pra onde?
Veja bem: era tão mais simples, mas a gente tinha que complicar!
"Tem que pagar conta, gente! Por isso aumentou!"
Tsc! Tsc!
Eita, humano besta!
Aí, o porco tá de nariz entupido!

Eita, que é a Revolução dos Bichos chegando!

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Águas (Música)

Água
que desce da fonte
vem por entre os montes
para nos banhar
uma sede tanta
de um povo que canta
de uma dor que nasce
desce pela face
e deixando mágoas
em tortos caminhos
para se trilhar
para se banhar
se banhar nas águas
águas dos meus olhos
que miraram os olhos
de uma linda flor
que pedia

Água
que nasce no peito
de um moço sem jeito
um poeta a mais
que procura as águas
pra molhar os olhos
pra lavar as mágoas
de uma linda flor
que pede poesia
e ao raiar de um dia
lhe chega o poeta
vem pra lhe banhar
pra molhar os olhos
pra matar a sede
desse seu amor.

(Rodrigo Sestrem - Maviael Melo)