quinta-feira, 30 de julho de 2009

Velho Mago Violeiro

Ainda ouço o violão tocando livre
e a voz antiga e grave me ninando o sono...
As serestas que me trilharam a infância,
e agora, à distância,
parecem a única vida que tive...
Vinicius, Noéis, Adonirans,
Chicos, Robertos...
E a mesma voz guiando todos
pelo peito novo,
de um jeito novo que hoje é
casaco rasgado e de estimação...

Ainda vejo o violão marcado
pelos dentes crescendo e coçando...
e o bebê careca e gordo
nas cordas bambas do pinho velho,
treinando o número que um dia faria...
E o velho mágico, ainda jovem,
pedindo silêncio, porque eu dormia,
tentando ver com quem eu parecia...
e eu era eu só...

Ainda toco o violão quebrado,
presente que ele mesmo consertou...
uma viagem da qual me foi guia...
bachianinhas arranjadas e assinadas.
E a saudade vibra em cada corda,
em cada acorde de nona que soa da mão...
da mão que herdei do mágico,
do velho mágico...

Hoje sei que sou seu maior truque...
Um dos dois maiores...

(Rodrigo Sestrem)

Bobeia não, Bonitinha!

Lambi mesmo...
E lambo de novo!
Bobeia não! Bobeia não!
Quem que mandou cair do ombro pro colo?
Quem te ensinou a ter um sono tão doce?

Qual era o sonho, menina?
O que te fez abrir os lábios pequenos,
pedindo atenção?

Queria tanto que você me visse
te vendo dormir...
Bobo, babão, inteiro...
Mas não quis te acordar pra isso...

Sabe o que é, Bonitinha?
O Tempo passa feito estrada à noite,
balançando o colo que te nina e acalma...
Passa e chega...
Passa e vai...

E aí, eu lambo mesmo!
Bobeia pra ver!

Se eu te acordei, não me desculpa não!
Foi sem querer, mas, mesmo assim, eu quis!
Pois vai que amanhece antes da hora?
Vai que eu cochilo e perco o despertar?
Quero te ver dormir, Bonitinha,
só pra te ver abrir os olhos, sem pressa,
e saber que eu tava ali, por perto,
olhando...

Mas se demorar...
Bobeia não,
que eu lambo!!!

(Renato Luciano / Rodrigo Sestrem)

sábado, 25 de julho de 2009

Soneto pra bronzear a humanidade

Eu quis ter como musa a humanidade
com seu rosto de velho herói de guerra,
marinheiro que nunca viu a terra,
criatura que espelha a divindade.

Fui levado sem paz pela loucura
de tentar pôr o foco em igualdade,
como fosse um rascunho sem rasura,
feito pintar de verde essa cidade.

E assim eu provei a minha idéia,
e ainda trouxe, de brinde, a solução.
Fiz dessa confusão coisa pequena:

Sempre há preferência na alcatéia,
e pra se amar toda essa multidão,
basta focar, tranquilo, uma morena.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

PoeTio

Na verdade, nem sei...
essa vida que me agride, doce,
e que me faz pensar tanto
e tanto, e sem adiantar,
essa mesma vida me faz rir...

O que importam amores de mão única,
invejas disfarçadas,
jogos de relacionamentos,
canções de amor feitas com olhos secos?

Nada mais importa...
Essa mesma vida que me mostra, vazia,
em plena rua calma da cidade
um homem com fome
(enquanto discuto figuras de linguagem)
e me prova que morrer de fome
já não é metáfora,
e que miséria não é pleonasmo
e que é eufemismo sorrir,
essa mesma vida me mostra
que há jeito...

Afinal,
de que vale sentir saudade
e chorar por isso?
Ou amar e achar que é pouco?
Ou assobiar melodias pela rua,
e nem perceber que só falta voar?

O que importa, no final,
é que meu irmão vai ser pai...

Ainda tem jeito...

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 18 de julho de 2009

Dialogando

Irmãos em versos jogados ao universo
em versos irmãos de outras jornadas...

(Maviael Melo)

jornais são nada perto dessa história,
que na memória de mil universos
causa reversos, danos, tilts, panes...
e não te enganes quanto ao que eu digo!
o nome "Amigo" é bem maior que Deus
pois se são meus o sonho, o amor e a fé,
então quem é o dono desse mundo?
Deus é, no fundo, Amigo, além de Pai,
e se distrai criando versos santos...

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Amiga da Sorte

Eu conheci uma menina que se diz
amiga íntima da Sorte, quase irmã,
cultivam desde a infância uma amizade sã
de trocas justas e aventuras por um triz.
E pra fazer aquilo que ela sempre quis
trazia sempre a Sorte junto pela mão
e a Sorte, esperta, nunca que dizia não
porque sabia que a menina era um anjo
dizia: "pode me pedir que eu me arranjo"
e iam assim, plantando a vida, grão a grão.

Hoje, crescida, essa menina ainda acredita
que a Sorte continua ali, sempre ao seu lado,
mesmo escondida, ainda faz algum agrado
quando percebe que a necessidade grita.
Quando acontece qualquer coisa esquisita,
e a menina põe a vida à sua vontade,
a Sorte ri, pois acredita de verdade,
que só assim, inocente, o mundo ainda tem graça,
e assim promove o encontro deles numa praça
pra dar descanso de uma noite pra saudade.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 12 de julho de 2009

Chocolate ou Tangerina?

Fico com raiva não... juro!
Só não entendo!

Como é que você faz pra resistir?
Como é que se organiza o beijo?
Como é que se comporta o desejo?

Acho até que te invejo...
Também queria ainda saber do mundo...
mas no exato segundo em que esse tal mundo vem,
você arrebata meu peito com tua saudade teleguiada,
e aí começo a te orbitar...
e aí a gravidade com que me olhas sedenta
quase me faz cometa apressado em cumprir destino...
e eu cometo a loucura, prometo!

Mas vai que só resistes
porque ainda não tem peso?
Vai que o espaço ao meu redor
ainda tá reto, direto, chato...
aí, você nem tem culpa, confesso...
mas nem mérito também!! Arrá!!!!
Afinal, que dificuldade há em se resistir a um chocolate
quando se prefere mesmo uma tangerina?
Aí é fácil!

Meu problema é que sou baiano,
e cê tem gosto de acarajé...
com vatapá, menina...
do Rio Vermelho, Morena...
feito na hora...
e quente...

Qual tua comida predileta?

(Rodrigo Sestrem)

sábado, 11 de julho de 2009

Vamos Brincar (Ludmila Sestrem)

(O Texto a seguir é de minha melhor amiga, a pessoa cuja opinião mais importa pra mim: minha irmã!)

vamos brincar?
sem regras, medos, razão...

correr, agir, cantar...
pra tudo, pro nada, pra o mundo que atua junto,
às vezes um sorriso falso dói mais do que lágrimas sinceras...
vamos brincar de sentir?
vamos sair por aí gritando nossa felicidade, o passar dos anos,
a saudade tão presente, o futuro alterado.
vamos brincar de sorrir...

palavras clichês, papel amarelado, a tinta da caneta acabou...
como tornar mais real isso que não me deixa em paz?
a beira da insensatez traz mais inspiração do que mil sorrisos
e a lua sorridente contrasta sua beleza com meus olhos já sem cor.
vamos brincar de criar?
vamos sair por aí desenhando esquinas e ruas que nos encontrem,
ou podemos desenhá-las no nosso olhar...
vamos brincar de destino...

vamos gargalhar a simples razão de existir,
mesmo que a razão não bata na porta há tempos,
tempo que passa, que aguarda, que envelhece junto com a gente.
vamos brincar de fugir?
esquecer o mundo, ou trazê-lo junto se preferir,
deixa aquela música tocar, ela acalma a alma...
está tudo completo,
vamos brincar de amar?

cinzeiro cheio, copos vazios...
meu coração ainda está aqui,
minhas promessas, todas as palavras lindas que tenho pra dizer.
guardadas para que? para quem?
brincar de que?
sua vez de escolher... de falar...
às vezes cansa brincar sozinho...
vamos brincar de solidão?

mas quando palavras não bastam,
o amanhecer só traz apenas mais horas para tentar manter os olhos secos,
torcendo para a lua trazer um sonho bom,
quando fantasias não saem mais do papel
e suas mãos secam sozinhas a sua face,
é hora de brincar de viver.

(Ludmila Sestrem)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Verso livre

Vamos correr perigo!
Vamos arriscar tudo!
Nada de calma, nada de morno,
Bom dia! Buon giorno! Good morning!
Adorne e enfeite teu dia, Morena,
que a cena é nova e já foi ensaiada!
De que vale o medo
se não for desafiado?
Viva o medo!
Viva o frio na barriga!
Também tenho medo, mas eu rio dele!
Olho pra ele e digo: pode vir,
que é você mesmo que eu tô esperando!
E ele ri de volta, sabendo que estamos juntos!
Ele também tem medo de mim, pois me sabe poeta!

Vamos correr riscos!
Vamos riscar regras!
Duas semanas, uma semana, meia semana, um sétimo de semana!
Se emana essa vontade, por que fugir?
Sem monocromatizar a vida, Peixinho! Nada de preto no branco!
Viva o verde e o vermelho!
Viva a cor morena!

Salve os quartos pequenos,
as caixas que falham,
as fugas mais cedo!
Salve a saudade assumida,
as bocas famintas,
os corpos molhados!

Vamos saudar o perigo!
Quando a vida passar, curiosa, perguntando como foi,
a gente pode responder sem medo,
pois ele já foi gasto lá atrás...

Vamos sentir mais do que devíamos!
Viva o exagero!
Viva a Poesia!
Isso que é liberdade...

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Senão não brinco!

Te quero, Morena,
que nem bicho buscando refúgio contra o frio
que nem rio que não vive sem o sal
que nem noite que amanhece sem querer...
Sou teu porque senão não brinco!
Faço birra, faço bico,
esperneio...
Não escrevo mais!
Nem leio!
Faço greve,
e de quem me deve, cobro o dobro!
E pago só a metade!
Eu fecho ruas, inundo casas,
invado mentes,
viro enchente de versos de chuva,
pois um dia sem teu beijo
são dois dilúvios e um quinto...
E a minha Arca sumiu!!
Ah, menina!
Olha a marca do teu corpo em meus olhos!
Tatuagem em minhas retinas, é o que és...
E esses espinhos nos meus pés,
que não me deixam parar!
Te quero, minha linda,
que nem caminhos querem pés descalços...
que os espinhos caem a cada passo...
a cada verso que faço pra você...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Berço de Dendê (Música)

Se o ijexá balança,
e a Bahia dança em meu peito longe,
é pra eu estar mais perto
das ladeiras do Pelô...

Se o ijexá confunde,
e eu não sou mais um de tantos que lá dormem
é pra eu estar desperto
vendo o amanhecer da ilha...

Se o ijexá domina,
e eu não sinto a sina de sair do berço,
é pra eu seguir crescendo
desmamando do dendê...

Se o ijexá consola,
e a saudade é mola de eterna vontade,
é pra eu estar de volta
mas só pra molhar os pés...

Se o ijexá aquece,
e a vida merece sempre um novo canto,
é pra eu ficar calado
pra ouvir Iemanjá...

Se o ijexá me move
e o olho chove, vira tempestade,
é pra eu sorrir, tranquilo,
com a certeza de chegar...

(Rodrigo Sestrem - Marcus Zanomia)