sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Velho Mundo Moço! (Música)

O mundo meu velho é um velho distinto
E em cada lugar ele se representa
Se é sujismundo ele não se contenta
E sabe se é seco, suave ou tinto
O vinho que rega pra não ser extinto
Nas margens que crescem formando a parede
O mundo mais novo deitava na rede
Agora sem rede, nem peixes, nem rio
O mundo já sofre com o novo sombrio
Que espalha o consumo sem mesmo ter sede

O mundo, seu moço, foi moço algum dia,
E os dias passavam olhando no olho
a terra, um banquete, e os mares, o molho,
a mesa repleta que a fome sacia.
O vinho que rega pra dar alegria
nas margens que crescem formando o futuro
O mundo, já velho, te encara do muro
e anda sozinho, nas ruas, na esquina,
É o Louco da Praça, que em versos te ensina
que o suor do Tempo é o vinho mais puro.

(Maviael Melo - Rodrigo Sestrem - Gustavo Henriques)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Faces da Lua

Você me segue,
vigia,
persegue,
Consegue ser ainda mais presente
que eu pra mim.

Sei que a Lua
é o teu olho em disfarce,
clareando meus passos,
tornando meu sangue
Maré...

Quando pisca pra mim,
num crescente, num riso...

Quando mingua, pequena,
fechando, dengosa...

Quando tem novidade,
e medita, no escuro...

Quando volta repleta,
cheia, orgulhosa!

É o teu olho, Mulher,
que eu encaro na noite!
A saudade é o mapa em minha mão.

É o teu olho, Mulher,
que eu encaro na noite!
Não me perca de vista mais não!

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Deus, admita que errou

Vim até sua casa, meu Senhor,
Pra mó de preguntá umas pregunta...
Inocentes... mas quando a gente junta
Vira uma confusão de dar pavor!
Por isso não se ofenda, faz favor,
Que gênio eu bem sei que eu não sou.
Mas por todo lugar por onde eu vou
Vejo umas coisa estranha, esquisita...
Peço que não se avexe e nem se omita
Ora, Deus, admita que errou!

Vou te dar um exemplo, e não brinco!
Diga logo, pra início de conversa:
O senhor já viu coisa mais perversa
Que criar o pobre do ornitorrinco?
O senhor tinha que ter mais afinco
Podia ter um pouco mais de tato.
Quem pintou universos sem retrato
Não tem porque não ter se decidido...
E até hoje o bichinho lá, perdido,
Sem saber se é um castor ou se é um pato!

Outro pobre coitado, o elefante,
Com um rabo no lugar do nariz
Pense na sinusite do infeliz
E nos litro de descongestionante!
E existe algo mais deselegante
Que a girafa com aquelas perna fina?
Agora, Pai do Céu, só imagina
Se a coitada se engasga cuma planta?
Tenha medo dessa dor de garganta
Quero ver que banca tanta aspirina!

Outra coisa que eu não vejo por quê
É pra que que existe a tal subida...
Por mim, existia só descida
Que é mais fácil e mais bom de se fazer!
Mas tá certo, nós vai fazer o que?
Vou dizer, e espero não repetir:
Era só o caso de corrigir
Um ditado que é muito do mal feito,
Pois pra baixo eu mesmo dou meu jeito
Os santo tem que ajudar é pra subir!

Tô pra ver brincadeira mais sem graça
Que essa coisa chamada de velhice
Que ainda traz junto com ela a calvície
E é aquela lisura nas carcaça!
É uma dor de coluna que não passa
Dieta pra cuidar do coração
A barriga virando um butijão
Uns buraco sem fundo na memória
E a diversão maior fica pra história
Já não sobe mais nada, só pressão!

O Universo na segunda-feira
Na terça, asteróides e cometas,
Na quarta-feira foram os planetas
Na quinta, mares, vulcões e clareiras.
A bagunça nasceu na sexta-feira
Tendo nos bicho alguns dos seus engano
No sábado inventou o ser humano
Criando duas besta numa leva!
Domingo adormeceu olhando Eva
E aí a criação foi pelo cano...

(Rodrigo Sestrem - Emílio Dantas)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pouso das Palavras

(Ao Poeta Damário DaCruz)

Se aprendi
o segredo das pipas?

Sim.

São palavras que voam
presas à linha do poeta.

O cerol são as rimas cortantes,
cores pintadas por metáforas em pincel.

Sim.

São palavras que voam.

E que têm seu pouso
no aeroporto que você
construiu pra elas.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nordestino

Nordestino, antes de tudo,
É um povo dos mais forte...
Pois é preciso coragem
Pra deixar o nosso norte
E seguir, pro sul distante,
Se vestir de viajante
Caminhar junto com a sorte.

Não tem que temer a morte
Não pode fugir da meta
Seguindo a estrada longa
Desenhando a própria seta
E cantando a vida em rima
Pois a gente lá de cima
Quando nasce, já é poeta.

No meu caso, já acerta
Quem diz: “esse já sofreu”!
Eita, verdade terrível!
Mas só quem sabe sou eu!
Haja prosa pra contar!
Se ocês quisé escutar,
Conto já o que aconteceu.

Vim de lá mais a família
Meus menino, minha muié
Nas trouxa, poucos pertence
Nos peito sobrava fé!
E os óio sempre cansado
Rezava, ajoelhado,
Pedindo viver de pé!

Quando consegui emprego
Fui vivê de tocador
Tocava mambo e bolero
Eu batucava o que for!
E se é o forró que retumba,
Na falta de uma zabumba,
Atacava de bongô!

A muié voltou pro norte
Num dava pra sustentar...
Os menino foram junto
Que aqui não tinha lugar.
E eu, buscando uma vida
Cá nas terra prometida
Sedento na beira do mar.

Nordestino, antes de tudo,
É povo que sempre luta
Não deixa morrer a honra
Não treme numa disputa.
Quando precisa, ele fala,
Se for melhor, ele cala
Se é necessário, ele escuta.

Vai buscar sonho no sul
Fugindo da terra agreste
Do sol que lhe queima o couro
E o couro que ele veste.
E sonha que a chuva desça
Que molhe sua cabeça
Que refresque seu nordeste.

Deixando a terra natal
Chegando na tal cidade
Buscando o sonho de vida
A simples felicidade!
Correndo o risco da fome
De esquecer o próprio nome
De mergulhar na saudade.

Saudade de sua terra
Onde deixou sua gente
Das roça de sua família
De cada planta ou semente.
Das noites de cantoria
Das rezas, das romaria,
Do sol tão forte, tão quente.

O sol, senhor dos seus dias
Vigia, permanece a pino
Até o fim, desde o início
Regendo o nosso destino.
Um dia, eu volto pras terra
E o mundo vai saber quem berra
Esse canto nordestino.

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais um dia no Sertão

Todo dia acordava antes dos sol
se ajoelhava e pedia saúde pra ele e para os seus.
Café era o prato de ontem.
Sempre esperava o atraso do sol,
uma folga, um tempo a mais pro torresmo fritar...
Mas nem o sol atrasava,
nem havia torresmo.
Mas havia coragem e havia medo também.
Mas o forte não sente medo,
nem chora, nem sente dor,
mas acredita na vida
e não pede tempo, nem sai do prumo.
Quando o sol finalmente escala o céu e mostra a cara,
ele chega a sorrir,
saboreando o café dormido,
já velho conhecido de seu bucho.

(Léo Pinheiro e Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Outro Haver

Resta essa necessidade de verso,
essa rima dengosa que me cutuca o braço,
e essa vontade de resumir a vida
num poema que me explique sem dizer nada

Resta essa vontade de chegar,
seja lá onde for, sabendo que a chegada
trará a vontade de partir
ao próximo destino

Resta esse sonho remendado,
retalhado, de panos baratos
e com cheiro de uma infância
que nunca me abandona,
e essa certeza de que a resposta
termina com um ponto de interrogação

Resta esse medo do fim,
da beira, da possibilidade
de um planeta plano
que guarde monstros em suas pontas,
prontos pra devorar as dúvidas
e os próprios medos

Resta essa lembrança distante
de um poeta professor,
ensinando a um menino poeta
seus primeiros rabiscos,
e essa consciência de que
a lembrança é verso também

Resta essa amizade antiga
de mãos que nunca se cumprimentaram,
abraços que não foram lançados,
e, ainda assim, ouço os conselhos
do velho homem sábio.

Resta essa homenagem simples,
quase como o retorno de um sonho
de quinze anos antes,
de quinze anos depois,
de um menino poeta que cresceu
apenas o suficiente
para agradecer.

Resta esse não saber como terminar,
essa aceitação de que é tudo chama,
por mais etéreo que seja
enquanto dure.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 11 de abril de 2010

Me deixa um olhar (Música)

Ei, Menina,
que entra na roda
tá sempre na moda
sem nem perceber!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

Ô, Menina,
do corpo suado
mais doce pecado
que eu vou cometer!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

E se a saudade
não quiser cruzar o rio
eu aceito o desafio
e vou nadando te buscar,
e não há ponte
de aço, corda ou madeira
que me prenda em qualquer beira
de lago, riacho ou mar!

Eita, Moça,
que dança bonita
meu peito se agita
pra te acompanhar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Moça linda,
da boca macia
pele cor do dia
e olhos de luar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Um dia, a Lua
vai inchar tão de repente
só pra poder passar rente
do teu rosto, pra te ver,
E então, surpresa,
vai ouvir minha voz suave
fiz da Lua minha nave
pra voar até você!

Ô, Menina,
que sonha comigo
teu sonho é o abrigo
onde eu quero morar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Eita, Moça,
se o amor desatina
vem logo e me ensina
que eu quero aprender!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

São Pernas que vêm andando, de vestido ou mini-saia

Sem Anita Garibaldi
Sem Cecília, nem Clarice,
E Florbela não me disse
que só espanca no escalde.
As poesias vêm sem fraude
esperando palma e vaia
inspiradas na lacraia
seus versos vêm rebolando
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Não há nada mais estranho
que a beleza distorcida
pelas mesas estendida
Eu, olhando, me acanho.
Parecem corpos de ganho
Não importa de que laia
Minha razão quase desmaia
e o mais louco admirando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

E um forró atrapalhado
O chapéu chega enxerido
do caboclo destemido
e eu olhando meio de lado...
Com uns copo, já mamado,
só esperando que ele caia
Não pensou em fugir da raia,
mas saiu cambaleando...
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Se espalham por todo canto
serelepes e afins
São formigas, são cupins,
espalhando aquele espanto.
Eu não acredito em santo
então caio na gandaia:
rasgo o couro da alfaia,
sento a zorra e vou cantando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

(Rodrigo Sestrem - Soluz Terrarium)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Xeque ou Mata (Música)

Deixa isso pra lá
Segue e
Pede pra parar
Diz que o
Mundo vai quebrar
Diz que a
Pedra vai cair
Que o
Profeta já acertou
Que o
Poeta já rimou
E há quem
Diga que sonhou
Que era
Sonho e quis sorrir

Então

Deixa pra depois
Vende o
Carro e assa os bois
Um mais
Um nem sempre é dois
Pra salvar
Já bastam três
Se o teu
Templo já ruiu
Se o teu
Santo já fugiu
Se o teu
Bucho já rugiu
Não espera
A tua vez

Pega e

Segue a pé
Leva o amanhã na mão
Se precisar de fé
Olha no chão

Não desmancha o tabuleiro
Não deixa o Rei desabar
Por mais que lhe falte peça
Se tu tá com pressa
Pra que foi jogar?

Mesmo chegando primeiro
Já tá lá quem te esperou
A resposta tá na cara
mas ninguém repara
que o espelho quebrou!

Deus soltou uma gargalhada
E o Diabo sossegou
Já chegou a tua hora
De pedir esmola
Pra tua própria dor

Já na alta madrugada
Quando o mundo cochilou
Joga teu disfarce fora
E confere a sacola
Vê se alguém roubou...

(Rodrigo Sestrem / Gustavo Henrique)

terça-feira, 23 de março de 2010

Distante do Sal

Pára! E o ouve o som dessa mata fechada
Passos molhados de um caminho natural
É a água doce do rio que corre, e mais nada
buscando o equilíbrio distante do sal.

E o brilho forte que sentes te vigiando,
e que te cerca inteiro, e faz vibrar teu ser,
No céu, são os olhos de Jaci, é a Lua inchando,
No chão, olhos da índia que você não vê.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 14 de março de 2010

Volta e Meia (Música)

Quem pode, pode,
quem não pode corre mais
e quanto mais se corre
mais se falta o chão

Passo a passo, dia a dia,
sol e noite sem parar,
toda terra tá à vista,
cada ilha uma canção...

Canto, grito, pulo, danço,
faço rir, faço chorar,
faço o mundo ficar manso
quando resolvo cantar...

Esse mundo gira muito,
volta e meia tô no chão
Mas floresta que se preza
algum dia já foi grão!

Quem aposta sua sorte
não perdeu a sua fé
só tirou ela de casa
pra manter o sonho em pé.

(Léo Pinheiro / Rodrigo Sestrem)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Lua Azul (Música)

Não diz mais nada
deixa ela chegar...
Que a noite é fada
tentando voar
deixando no ar
suas estrelas de condão...

Fecha os teus olhos
Juro que ela vem!
Se a noite é longa,
o sonho é mais além...
e eu sonho também,
sem soltar da tua mão.

E no teu sono, vai com fé!
Lá pode tudo o que quiser...
Mas, de repente,
vais sentir, contente,
minha voz e um cafuné...

Não olha ainda,
ela apareceu...
A noite é linda,
e hoje ela nos deu,
pra você e eu,
uma lua azul no céu.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Segredo

Trouxe a chave?

Tá trancado faz tempo...
Já até tentaram arrombar, mas não teve jeito...
Tenta aí...
Não é a chave não...
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Nem tenta, que essa não vai dar!
Tenho certeza sim... é de outro tipo, tá vendo?
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Essa parece que serve...
Tenta aí... pode ser que funcione...
Nem...
Desiste.

...

Trouxe a chave?

Não?
Entendi...
Você já sabia que a porta tava aberta?

Entra... a casa é tua... o peito é teu...

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Assumindo a autoria

"A brisa do mar vem calma
e traz a saudade no amanhecer
de um dia que não lhe encontro mais aqui..."

Mas fui eu quem soprou a brisa,
e com ela mandei a saudade
que é gêmea da que ficou comigo...
e o amanhecer, eu pintei pra você
na tela de um dia
em que descobri
que estamos juntos
e pronto...

Você não me encontrou
porque procurou fora...

Dá uma olhada aí dentro...

(Nanã - Rô)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Roda

E a roda começa...
Começa?
Mas se a roda não pára, como é que se explica?
De repente, o começo é continuação...

E gira a menina,
e gira a mulher,
e gira o flautista,
num sopro tornado, tufão

Gira, Tempo!
Gira sempre, mesmo que eu reclame!
Afinal, que que eu sei?
Não fosse você,
nem chegaria a ter de quem sentir essa saudade...
A roda não pára...
O verso não pára...
A rima é roda gigante, vazia,
que se enche quando alguém a lê...

A roda não pára,
Saudade só gira,
tonteia meu peito
e me diz pra gritar

E o grito, girando,
rodando no mundo,
talvez te atinja
e te faça girar...

Teus olhos que giram,
reviram, pedintes,
seriam duas luas
fingindo faróis

E eu, refletindo,
teria o requinte
de trazer pra rua
duas luas, dois sóis

E a roda não pára!
E o tempo não pára!
Você nem repara
que eu já me perdi...

Fui, tonto, sorrindo,
entregue à fogueira
mirando a guerreira
mais linda que vi...

E a roda termina...
Termina?
Mas se a roda não pára, como é que se explica?
De repente, o fim é continuação...

(Rodrigo Sestrem)