sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais um dia no Sertão

Todo dia acordava antes dos sol
se ajoelhava e pedia saúde pra ele e para os seus.
Café era o prato de ontem.
Sempre esperava o atraso do sol,
uma folga, um tempo a mais pro torresmo fritar...
Mas nem o sol atrasava,
nem havia torresmo.
Mas havia coragem e havia medo também.
Mas o forte não sente medo,
nem chora, nem sente dor,
mas acredita na vida
e não pede tempo, nem sai do prumo.
Quando o sol finalmente escala o céu e mostra a cara,
ele chega a sorrir,
saboreando o café dormido,
já velho conhecido de seu bucho.

(Léo Pinheiro e Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Outro Haver

Resta essa necessidade de verso,
essa rima dengosa que me cutuca o braço,
e essa vontade de resumir a vida
num poema que me explique sem dizer nada

Resta essa vontade de chegar,
seja lá onde for, sabendo que a chegada
trará a vontade de partir
ao próximo destino

Resta esse sonho remendado,
retalhado, de panos baratos
e com cheiro de uma infância
que nunca me abandona,
e essa certeza de que a resposta
termina com um ponto de interrogação

Resta esse medo do fim,
da beira, da possibilidade
de um planeta plano
que guarde monstros em suas pontas,
prontos pra devorar as dúvidas
e os próprios medos

Resta essa lembrança distante
de um poeta professor,
ensinando a um menino poeta
seus primeiros rabiscos,
e essa consciência de que
a lembrança é verso também

Resta essa amizade antiga
de mãos que nunca se cumprimentaram,
abraços que não foram lançados,
e, ainda assim, ouço os conselhos
do velho homem sábio.

Resta essa homenagem simples,
quase como o retorno de um sonho
de quinze anos antes,
de quinze anos depois,
de um menino poeta que cresceu
apenas o suficiente
para agradecer.

Resta esse não saber como terminar,
essa aceitação de que é tudo chama,
por mais etéreo que seja
enquanto dure.

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 11 de abril de 2010

Me deixa um olhar (Música)

Ei, Menina,
que entra na roda
tá sempre na moda
sem nem perceber!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

Ô, Menina,
do corpo suado
mais doce pecado
que eu vou cometer!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

E se a saudade
não quiser cruzar o rio
eu aceito o desafio
e vou nadando te buscar,
e não há ponte
de aço, corda ou madeira
que me prenda em qualquer beira
de lago, riacho ou mar!

Eita, Moça,
que dança bonita
meu peito se agita
pra te acompanhar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Moça linda,
da boca macia
pele cor do dia
e olhos de luar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Um dia, a Lua
vai inchar tão de repente
só pra poder passar rente
do teu rosto, pra te ver,
E então, surpresa,
vai ouvir minha voz suave
fiz da Lua minha nave
pra voar até você!

Ô, Menina,
que sonha comigo
teu sonho é o abrigo
onde eu quero morar!

Ô, Menina, me dá de beber,
Ô, Menina, me deixa um olhar.

Eita, Moça,
se o amor desatina
vem logo e me ensina
que eu quero aprender!

Ô, Menina, me deixa um olhar,
Ô, Menina, me dá de beber.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

São Pernas que vêm andando, de vestido ou mini-saia

Sem Anita Garibaldi
Sem Cecília, nem Clarice,
E Florbela não me disse
que só espanca no escalde.
As poesias vêm sem fraude
esperando palma e vaia
inspiradas na lacraia
seus versos vêm rebolando
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Não há nada mais estranho
que a beleza distorcida
pelas mesas estendida
Eu, olhando, me acanho.
Parecem corpos de ganho
Não importa de que laia
Minha razão quase desmaia
e o mais louco admirando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

E um forró atrapalhado
O chapéu chega enxerido
do caboclo destemido
e eu olhando meio de lado...
Com uns copo, já mamado,
só esperando que ele caia
Não pensou em fugir da raia,
mas saiu cambaleando...
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

Se espalham por todo canto
serelepes e afins
São formigas, são cupins,
espalhando aquele espanto.
Eu não acredito em santo
então caio na gandaia:
rasgo o couro da alfaia,
sento a zorra e vou cantando!
São pernas que vêm andando
de vestido ou mini-saia.

(Rodrigo Sestrem - Soluz Terrarium)