segunda-feira, 26 de abril de 2010

Outro Haver

Resta essa necessidade de verso,
essa rima dengosa que me cutuca o braço,
e essa vontade de resumir a vida
num poema que me explique sem dizer nada

Resta essa vontade de chegar,
seja lá onde for, sabendo que a chegada
trará a vontade de partir
ao próximo destino

Resta esse sonho remendado,
retalhado, de panos baratos
e com cheiro de uma infância
que nunca me abandona,
e essa certeza de que a resposta
termina com um ponto de interrogação

Resta esse medo do fim,
da beira, da possibilidade
de um planeta plano
que guarde monstros em suas pontas,
prontos pra devorar as dúvidas
e os próprios medos

Resta essa lembrança distante
de um poeta professor,
ensinando a um menino poeta
seus primeiros rabiscos,
e essa consciência de que
a lembrança é verso também

Resta essa amizade antiga
de mãos que nunca se cumprimentaram,
abraços que não foram lançados,
e, ainda assim, ouço os conselhos
do velho homem sábio.

Resta essa homenagem simples,
quase como o retorno de um sonho
de quinze anos antes,
de quinze anos depois,
de um menino poeta que cresceu
apenas o suficiente
para agradecer.

Resta esse não saber como terminar,
essa aceitação de que é tudo chama,
por mais etéreo que seja
enquanto dure.

(Rodrigo Sestrem)

1 comentários:

alineao disse...

maravilhoso! novos versos...
agora resta essa vontade mais poesia! :)