quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pelas rugas do rio (Música)

A pele é o pé, é o chão
rachados

Como se a gota de suor
que brota do chão
rolasse no chão
para desaguar no chão.

Feito lágrima seca
cavando um vão
rasgando a terra
cavando um vão

Pelas rugas do rio

Leito seco, Menino, com os olhos no mar
Poço fundo, Senhora, parindo esse chão

Pelas rugas do rio

Como fosse o planeta um corpo com fome
Como fosse o seu rosto o próprio sertão.

(Rodrigo Sestrem - Verônica Bonfim - Léo Pinheiro)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ancestralidade

Porque sou teu fruto
Teu salvo-conduto
pra pisar no infinito...

Porque sou da tua lavra
A esperada palavra
que explica o teu grito...

Te perdôo, te abraço
Aperto este laço
Te sou lá na frente!
E assim o teu braço
somado ao meu braço
alcança, finalmente,

Teu sonho distante
que eu sei, nesse instante:
É meu sonho também!

Porque sou teu futuro
Sigo além do muro
que você construiu...

Por ser teu horizonte
teu barco, tua ponte
pra vencer o rio...

Te perdôo, te abraço
Aperto este laço
tal qual a semente
que, com a força que resta,
abraça a floresta
que é sua nascente.

Riacho distante
do qual sei, nesse instante:
Sou afluente também.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Rabeca na Roda (Música)

Violino sem beca
é rabeca na roda!
O arco na roda é canoa...
É rabeca na roda
e a vida é canoa!

Mar que nunca mais seca
é rabeca na roda!
A roda que gira e que voa...
É rabeca na roda
que gira e que voa!

Quem faz sala pra Mestre Salu?
Quem cavalga o Cavalo Marinho?
Tá no côco e no maracatu,
tem pegadas em qualquer caminho?

Há lagoas de notas sem fundo,
e na beira um velho tocador.
Pois Seu Nelson, ele é nosso e é do mundo!
Terra bruta gerando uma flor!

Se essa roda gerar a ciranda,
Siba vem se balançar também!
E se alguém perguntar: "Quem comanda?"
a resposta é só uma: "Ninguém!"

Mas se a nobre galera insiste,
vem Antônio com a dança ancestral!
Pois brincante maior não existe,
e essa roda hoje é armorial!

E as meninas que aceitam o destino
de ser ventre onde o som vai nascer!
Se a rabeca é um ser feminino,
duas Rosas já formam o buquê!

Se essa roda é o mundo girando,
Tempo é a Rabeca e o Ganzá!
Cada gente é semente brotando,
tem um sol brilhando em cada olhar!

(Rodrigo Sestrem) - Homenagem a todos os rabequeiros e rabequeiras do Brasil

terça-feira, 31 de maio de 2011

Quixote de um País (Música)

Eu,
Desesperadamente quis
Viver a vida por um triz,
Roubar os sinos da matriz
com meu cavalo alado!
Contorcido, desenhado,
naquele papel de pão a giz...

Eu,
Inconsequentemente quis
Ser o Quixote de um país
Cujos moinhos eu que fiz,
sem água, ou pás, nem prado!
Esquecidos, rabiscados,
naquele papel de pão a giz...

Eu,
Que a todos desafiei...
Eu
confesso: não pensei
que quem escrevera a lei
nos livros do passado
fora o próprio condenado!

Eu,
Que em tudo acreditei...
Eu
confesso: nada sei...
Quisera ser um rei,
um príncipe encantado...
Do reino que herdei,
acabei sendo soldado.

(Taís Salles - Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Nas Curvas do Rio (Música)

Naquela curva do Rio
não tem canoa não...
Naquela curva do Rio
tem automóvel!

Passando rente
pela gente
na calçada fria
Passando rente
indiferente
ao violão
E a gente
crente que ainda
ia ser feliz um dia
Cantando e
assobiando
outra canção!

Na outra curva do Rio
num tem mais tronco não...
Na outra curva do Rio
tem viaduto!

Passando por cima
da gente num
caminho reto
sem saber
bem ao certo
pra que tá no ar,
como um atalho
pra ir em busca
de um sonho concreto,
pra quem
não tem
mais tempo de sonhar!

E nessa curva do Rio
num tem mais peixe não...
E nessa curva do Rio
tem Fast Food!

Chamando o
bucho da gente
feito bóia-fria,
comida quente
indiferente
à digestão!
E a gente
crente que algum dia
ainda se sacia,
sem ter que
colher tudo
num balcão!

(Rodrigo Sestrem / Renato Luciano)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Onda Antiga (Música)

Lua
és Senhora, Dona, Mãe,
Mulher do mundo.
Nos derrama
as ondas vindas do
ventre profundo.

Águas
curativas, fontes vivas
berço antigo
Nos leve
consigo, nos abrigue
nos ensine assim...

Ouça a enchente da maré
sussurrando algum segredo
Molhe os pés, não tenha medo
Dispa inteira a tua fé.

Onde anda a onda antiga?
Primeiro sopro do vento?
A folha em branco, o momento
em que se compôs a Cantiga?

Canção que ninou a terra
na primeira trovoada.
De quem era a voz cansada
que tanto segredo encerra?

Ouça a enchente da maré
sussurrando algum segredo.
Mergulhe, não tenha medo
Molhe e enxarque a tua fé.
A resposta não dá pé,
tá na ponta do horizonte.
Quando descobrir, não conte!
Leve o segredo adiante
que logo é maré vazante,
seguindo de volta à fonte.

(Rodrigo Sestrem)