sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius

 Aos 11 anos, li pela primeira vez a "Antologia Poética" de Vinicius... troquei por "Vinte Mil Léguas Submarinas", de Julio Verne, com um amigo meu... garanto que minha viagem foi maior que a dele, no final das contas...

   Tentei ler as duas primeiras poesias do livro, e não entendi nada... de repente, me deparei com os versos que mudariam minha vida pra sempre. 
   
   Claro que eu não tinha consciência disso, afinal, tinha apenas 11 anos. Claro que eu não compreendi os versos racionalmente... talvez pela primeira vez eu tenha lido uma poesia como ela deve ser lida: sem tentar entendê-la... 

   A partir daí, comecei a escutar Vinicius feito um alucinado. Enquanto meus colegas começavam a escutar Rock e outros estilos, eu entrava de cabeça nos mistérios da Bossa Nova...

   Um dia, assisti a um especial sobre o Poetinha onde ele declamava "O Haver", com o fundo musical de "Canto Triste", dele e de Edu Lobo, tocada pelo próprio Edu... eu tinha uns 14 anos...

   Nesse mesmo ano, escrevi minha primeira poesia...

   Acordei num sábado de manhã, e ainda lembrava do sonho... estava sentado com meu pai e outras pessoas ao redor de uma mesa, cantando e tocando, e, de repente, Vinicius me chamava (com um copinho de uísque na mão) dizendo: "Chega aqui, menino. Vou te ensinar a escrever poesia!". Acordei escrevendo...

  Decidi postar aqui esses dois poemas que tanto me transformaram e continuam transformando a cada novo mergulho em seus versos...


  O primeiro é o que li aos 11 anos... "Ilha do Governador".

  O segundo é o que eu considero uma das obras-primas da poesia mundial... "O Haver".

  Salve, Poetinha!

  E obrigado por tudo...

Rodrigo Sestrem

Ilha do Governador (Vinicius de Moraes)

Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Suzana - ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti - sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… - ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos - eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?


O Haver (Vinicius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura,
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
- Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo,
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esses sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta, quem sabe, inexistente,
E essa coragem indizível diante do grande medo
E, ao mesmo tempo, esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento,
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável,
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços,
E esse eterno ressuscitar para ser recruscificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada, 
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante,
Sem saber que é a minha mais nova namorada.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aceitação

É que o Tempo passa, só isso...
Nada mais...

Não é a falta d'água, ou de luz,
ou de razão...
Não é a incerteza do trabalho,
ou do domingo ensolarado
completamente encharcado pela chuva que enganou a máquina...
Nem mesmo é o chão molhado pelo telhado falho,
nem o gato no coqueiro,
nem o filme ruim que parecia bom,
nem o filme bom que assisto toda vez que passa...

É que o Tempo passa...

Essa birra que eu já sei que é inútil,
essa briga na qual só eu bato
e apanho...

Deve ser uma espécie de adolescência filosófica,
uma revolta contra o pai, o chefe, o professor, a autoridade...
Sei que Ele passa porque não sabe fazer outra coisa,
ou talvez seja pago pra isso,
ou talvez tenha se acostumado...
No fundo, não importa.

Quando o Tempo era jovem, contra quem se revoltou?

Já aprendi que Você passa...
Tá certo...

Resolvi abrir os olhos,
assumir que tô à bordo,
e curtir a viagem...

De repente, o segredo tá na paisagem...

De repente, encontro o que procuro pela estrada,
e aceno...

De repente, eu aceno de volta...

(Rodrigo Sestrem)