sábado, 7 de janeiro de 2017

Pedra-Raiz

A pedra
parada
rolou
bateu
quebrou
parou
caiu
chegou
voou
feriu
partiu
rolou
bateu
quebrou
parou...

e viu...
e viu...
e viu...

A pedra hoje é raiz.
Início de céu...

(Rodrigo Sestrem)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Meu silêncio

Senti falta do silêncio
Não o absoluto, o supremo.
O silêncio de ideias, de opiniões.

Podem vir os ruídos do cachorro
mijando no jornal
Da irmã caçula
trocando o jornal
De mentiras velhas
mijadas no jornal

Senti falta de não escutar conversas
de não conversar os sonhos
de não sonhar sem agir

Senti falta do fim de noite sozinho
enquanto o sono ainda não chega
do barulho da geladeira
sendo o protagonista de um monólogo.

Podem vir os ruídos de passos
no andar de cima
de copos mal estacionados
de amores de paredes finas
de roncos desafinados

O silêncio de que falo
é meu amigo.

Não é perfeito,
não é bonito,
não é brilhante,
não é blindado.

Mas é meu.
E me conta os segredos mais escandalosos
que meu coração sussurra, desesperado,
durante todo o dia.

(Rodrigo Sestrem)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Feliz ano no... nov... Atchim!!

Essa tosse que insiste em opinar
sem julgar o que diz nem o que pensa
A garganta coçando, a doença
que chegou sem bater ou avisar.
A cabeça que pesa feito mar
quando é onda gigante e apressada
O nariz chove aquela enxurrada
Suor tenta esfriar o corpo quente
mesmo assim, eu escrevo, insistente,
sobre a gripe que veio na virada.

(Rodrigo Sestrem)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Janela discreta

A janela fechada não dizia nada...
Era quase só janela. Mas não era!
Aquela janela era o olho do mundo!
Olhava, de pálpebras fechadas, para algo que só ela via...
E não dizia nada...

Janela discreta, apesar de curiosa...

Eu tentava olhar por esta janela, desde sempre...
Nunca consegui...
Sempre fechada, sempre trancada, sempre calada!

Quase só janela... mas não era!
Aquela janela era o portal secreto
das coisas que não conheço
dos mundos que não existem
dos sonhos que ainda não são!

Janela discreta, ainda que misteriosa...

Um dia, depois de muito tempo,
já desistida por mim,
já esquecida por mim,
a janela falou:
"tindakake kanthi wuta pitados kanggo ndeleng"
...

Mas eu não sei falar javanês...

Enquanto não aprendo,
sigo confiando cegamente para ver.

(Rodrigo Sestrem)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Uma Unidade

Veja bem, tudo morre, tudo passa!
Gente, bicho, estrela, até cultura!
Água teimosa vence pedra dura
Caçador, não te iludas, tu és caça!
A pedra que joguei, sei que não passa
do mais alto que pode ir, e cai
Futuro, quando chega, já se vai
Era só uma memória lá da frente...
Mesmo andando pra trás, segues em frente
nessa linha da qual o Tempo é pai.

O sistema ruindo faz barulho
Faz escândalo, birra, sapateia
Feito criança suja de areia
fugindo da água fria e do mergulho.
Gente se assusta mais com o pedregulho
que ainda pode cair lá do espaço...
Veja bem, o motivo do cagaço
tá mais perto do que a gente pensa:
é o ódio mortal da diferença
A ilusão de que somos só pedaço.

Somos humanidade, uma unidade
Somos parte, sim, mas de um só todo
A tal separação é um engodo
Mentira disfarçada de verdade.
A cegueira maior é a má-vontade
é o medo do escuro que há no novo!
Pra romper a parede desse ovo
é preciso coragem pra se olhar
Não dá mais pra tentar se enganar
Então, abro meus olhos e me movo...

Veja bem, tudo passa, e mesmo assim
A gente continua no caminho
Sei que em algum lugar há um moinho
Onde o Quixote vai olhar pra mim...
E dizer: "não tenha medo do fim
pois é pré-requisito pro começo!"
Esse mundo que eu amo tá do avesso!
Mas desvira daqui até o final...
Basta amar o Amor Incondicional
pra curar as feridas do tropeço.

(Rodrigo Sestrem)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Passos Curiosos

Vida, te vi vindo
como quem passeia
numa rua cheia
de gente e barulho
Eu era Orgulho
sem saber que era
Eu era Espera
de algo já passado
sonhando acordado
que estava dormindo...

O galo cantava
a mesma canção
que escrevi, a mão
numa noite fria
Eu raiei o dia
meus olhos abertos
multidões, desertos
bem na minha frente
Mesmo o sol mais quente
não me esquentava.

Vida, eu te abracei
com tanta vontade
tamanha verdade
tanta mansidão
que sai do chão
pulando em teu braço
e sem embaraço
sem qualquer pudor
todo o meu Amor
eu te declarei!

Vamos de mãos dadas,
Vida, minha Vida,
curando a ferida
de meus pés teimosos
Passos curiosos
podem correr riscos
Mas nem mil coriscos
hão de me assustar
se você aceitar
dividir estradas...

(Rodrigo Sestrem)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Mudança

Outra pena escreve, hoje, meus versos
Outras mãos, outros dedos os digitam
Outro peito retumba outro batuque
Outros pés, sem controle, se agitam.
Agradeço bastante a quem eu era
Mas Verão atropela Primavera
quando o Sol já tá pronto pra reinar
O Poeta que fui valeu a pena
Mas o que me tornei já tá em cena
pra, acima de tudo, improvisar.

O menino virou pai, virou homem,
A semente tomou forma e surgiu!
Num final de um Setembro ainda tão perto
Minha infância insistente enfim partiu.
O Amor me chegou no olhar atento
Eterno disfarçado de Momento
Pra vir me ensinar um novo caminho
Onde o sonho é melhor sonhado junto
Quando o silêncio é o melhor assunto
Foi-se embora a ilusão de ser sozinho.

(Rodrigo Sestrem)