segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Mulher

Foi quando eu a vi chegando.
Via apenas seu vulto. Estava longe, muito longe, mas eu sabia que era pra mim que ela olhava.
Pra mim, no meio da multidão de pessoas e pessoas que havia ao redor, era pra mim que ela olhava.
E eu pressentia que apenas eu a via.
Linda. Linda. Seus cabelos eram negros e belos e longos, como as noites de estrelas das noites da ilha.
Seus olhos, negros como os negros cabelos noturnos. Linda.
A multidão continuava seu caminho na direção do vazio de cada vida que dela fazia parte, vazios que se encontravam no mesmo lugar.
Ninguém percebeu a mulher chegando.
Só eu.
Ela também parecia não ver o mundo de gente ao meu redor, seus olhos eram guiados para os meus, e o frio da noite crescia como crescia o desejo de olhar para sempre aqueles olhos.
Olhos negros e belos e distantes.
Mas cada vez mais perto.
Foi quando ela me disse "Siga-me".
Não era uma ordem, mas não pude negar.
Quando toquei sua mão macia e fria, entrelaçando meus dedos nos seus, já não enxergava mais o rebanho de indivíduos que agora há pouco ao meu lado perambulavam.
Éramos apenas nós dois.
A mulher e eu.
Perguntei-lhe "Quem é você" e ela, calada, disse "A Vida".
Sorriu.
Sorri.
Foi quando paramos à beira do mar, e ela, de repente nua, abraçou-se a mim, de repente nu.
Corpos nus e frios e quentes de desejo.
Seus olhos diziam "Beija-me" e os meus resistiam.
Pensei na multidão, que podia estar assistindo àquele espetáculo inusitado, mas multidão não mais existia.
Ela disse "Antes pensar em seus amigos, em sua gente".
Pensei.
E senti saudade, e senti o amor crescer ao redor de nós, e do mar, e do firmamento.
Linda. Linda e nua.
Sonhos passam por nós em nossos sonhos, sonhos belos e incríveis.
Mas aquele sonho era maior.
Linda e nua. Linda.
O frio aumentava, mas já não mais o sentia.
Seu abraço aquecia meus pensamentos, e meus pensamentos aqueciam nosso abraço.
Falei "Quero te beijar agora".
Seus lábios tocaram os meus, e sua língua roubou meus sentidos.
O mundo girava, parado, estático, mas girava com a velocidade da luz.
Luz que emanava de seus cabelos negros, de seus olhos negros.
Perguntei-lhe, finalmente "És A Vida ou A Morte".
Respondeu-me apenas "Sou".
Sorriu.
E me levou de mãos dadas pela estrada que surgiu no mar.
Nasci.


(Rodrigo Sestrem)

6 comentários:

Cíntia disse...

A vida ou a morte? Ou a vida e morte?
Para se viver deve-se morrer e para morrer é necessário estar vivo!
Beijar nu e entregar-se a vida ou a morte desta maneira é para corajosos!
Sinto em suas palavras que você está se entregando a morte para nascer para uma nova vida!
Meu amigo...estamos juntos nessa!
Adoroooooo vc!

Soluz disse...

.'.

Irmão,

Interessante notar que o tema chega a ter relação com o sonho que tive... Morte e vida tal complemento uma da outra. E a pergunta "és a vida ou a morte" traz a noção exata de que as duas palavras formulam uma só teoria, a Teoria da Existência (acabei de inventar esta). A teoria diz que para algo nascer tem de morrer e para morrer tem de nascer. Diz ainda que quando algo vem a este Plano é porque antes teve sua morte em outro Plano e quando morre neste Plano é para que possa nascer em outro. Não esquecendo que mesmo estando em um só plano, as coisas e seres podem ter suas mortes e nascimentos, suas morphoses. Então a Teoria da Existência diz que a vida é eterna através dos inúmeros ciclos de morte e nascimento, gerando a sequência de morphoses evolutivas e reintegráveis, através das quais todas as coisas e seres tendem a voltar à Fonte Original. Nada vive e nada morre, tudo existe!

A Fonte Orinal no seu texto é muito bem expressa! "Me levou de mãos dadas pela estrada que surgiu no MAR". A água é o elemento que está associado ao início da vida, toda a vida que hoje anda na terra antes estava na água e através das morphoses gerais, hoje estão por todas as partes. Água e, consequentemente, mar, são símbolos de vida nas Tradições Ocultistas. O mito de Thiamat (Deusa do Abismo ou Caos) fala também que esta Deusa habitava as águas primevas... E no mais, tinha de ser A Mulher, a portadora do amniótico, do ventre cheio de água, pois morte e vida já trazem o gênero feminino.

Bem, por ora vou ficando por aqui. Acho que já pairei demas. Obrigado pelo belo texto, irmão!

Luz!

'.'

Mayra disse...

Eu li, tudo, juro! Todos!! E o que dizer? Incrível, simplesmente!

Sem palavras. Especialmente hoje, que a vida e a morte pareciam mais ou menos iguais para mim... Ó céus... mundo mais complicado!

Saudades!

Beijinho

juvarajao disse...

Eu ia ler todo o blog pra escolher um texto pra comentar... mas não deu!
Tive que mudar meus planos! rsrs.
Aí, eu fui ver q as pessoas comentaram livros aqui em cima, oq me deixou meio desconcertada, já q eu só ia escrever: "sem comentários..."!
Então, vou só posso descrever minha reação boquiaberta, que brigava com o sorriso, de olhos arregalados!
Pronto... escrevi um livro-comentário também!
Ah, sou sua fã!

Bella Flor disse...

Um dos mais lindos que vc jah me contou!!!
Um dos que eu mais gosto (por mais difícil que seja escolher um em especial!)
A vida e a morte é só uma passagem, oq realmente há entre (ou depois) dos dois???

Um grande Beijo Digo!!
Jah estou com saudades...^^

Nanã disse...

Meu Bem, este texto e o que estávamos conversando me lembrou o mito de Perséfone.

O Mito inicia-se na superfície da Terra... A Terra vivia em fartura e prosperidade, uma eterna primavera – Coré, filha de Demeter, a Deusa da Agricultura com Zeus, estava colhendo Narcisos em um campo florido, quando uma fenda abriu-se na terra e surgiu o Senhor do Submundo(Hades), que vinha busca-lá como pagamento de um acordo com Zeus.
Coré é levada ao submundo sem direito de escolha, sendo tirada do conforto do seu lar e do acalanto de sua mãe na superfície da terra próximo a luz solar. Então depara-se com as trevas, sombras e principalmente com a sabedoria encontradas na firmeza do centro da terra... local de onde todas as coisas saem e para onde todas as coisas retornaram – Útero Sagrado -
O Rei do Submundo, Hades, também foi pego de surpresa (se é assim que podemos consideras), pois percebeu na Bela Coré aquilo que lhe faltava nas entranhas do submundo, o Amor. Coré desvendou em Hades o mistério do elo para a criação. E depois de atravessar os rios e os portais finalmente chegando ao reino subterrâneo, sem nenhuma das suas veste(que representam os antigos padrões adquiridos durante a sua vida) também aprendeu O Amor, pois Hades mesmo amando deixa-a livre para que volte a superfície ao encontro de sua mãe.
Sendo que a donzela Coré não existe mais... Coré morre no caminho ao reino avenal, onde todos os antigos padrões são deixados para trás. E com o aprendizado do amor renasce como Perséfone, senhora do seu próprio destino. Escolhendo ficar no Reino Subterrâneo, reinado junto com Hades.
Demeter, esta desolada, sem se preocupar com as sua tarefas... então a terra teve o seu primeiro e longo inverno, havendo muita fome e morte. Com isso Perséfone junto a outros deuses faz um acordo que ira voltar à superfície da terra para visitar sua mãe. E passará seis meses na superfície e seis meses no submundo. Demeter então cria as estações, com a chegada de Perséfone – A Primavera e Verão... quando Perséfone volta ao Reino Avenal, Demeter esta triste – então temos o Outono e Inverno.
Perséfone torna-se a Rainha do Submundo e é aquela que guia as almas nos caminhos ao outro lado da vida, sendo portadora dos conhecimentos da vida e da morte.

Quando conversávamos sobre o Tempo, a Morte e o q existe depois... digo-lhe com clareza que certeza não teremos... a única certeza que tenho é que o crescimento psicomental e a evolução pessoal também fazem parte da busca das sombras. E acho que não permitir que este “segredo” morra já é algo que vale apena mesmo que não tenha uma continuação depois. Porque não existiria Luz se não houvesse o seu oposto, assim como não existiria Vida se não tivesse a Morte.
O encontro com a Sombra trata-se do renascimento do verdadeiro Iniciado com sua verdadeira Luz individual manifestada e perceptível justamente porque ilumina as Trevas. É o indivíduo como o Portador da Luz, Lúcifer, lúcido, luminoso, iluminando o véu negro que oculta o conhecimento e a sabedoria. Acredito que vc retratou no seu texto a sua descida ao Reino Avenal, ou seja, a sua morte para renascer em uma outra consciência.

Estou muito Feliz em vc esta compartilhando essas experiências comigo!

Um bjo grande!
Lux!!!